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do faz tempo

ando desligada de mim, em uma espécie de abandono consciente.

Escrevi pouco no último mês. Refleti pouco no último mês. Esqueci de tudo aquilo que não se encaixou na rotina concreta. Discretamente, abandonei. Tudo. Todos. Abandonei a mim mesma. No limite, é dialética essa questão dos abandonos: o mundo veio me abandonando ou eu que fui abandonando o mundo. Ambos.

Fazia tempo que não acordava como hoje: sem conseguir ao menos levantar da cama. Havia esquecido o que era isso. Dificuldade infinita. Preciso levantar; ecoava em minha mente. Preciso levantar, escovar os dentes, tomar uma xícara de café. Por horas. Horas. Enfim levantei. A dor excruciante da alma então tomou as habilidades corporais. Paralisante. O corpo então pareceu entrar em slow motion.Os olhos não vislumbraram nada além. Apenas o choro de quem não aguenta mais existir.

Desconfortável dentro de mim mesma. Nessa montanha-russa incontrolável que me habita. Um dia por vez.

das escolhas

eu não fui inclusa. entendi que o Mundo que me rodeia vem cortando nossos laços há tempos. às vezes, parece que ninguém ficou. questiono se alguma vez alguém esteve. realizei que não tenho mais espaço nas vidas, inclusive na minha. resolvi que preciso de mais espaço. chamar de meu. eu. singular.

gostaria de ter rompido com o Mundo antes que ele o fizesse. assim, talvez, doesse menos. fosse tristeza controlada. agora, pairo em tentativas vermelhas de controlar o incontrolável em um contante movimento de endurecer. finalmente, alguém tomou esta decisão por mim: devo ser muralha. romper nunca pareceu tão difícil.

são paulo

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* sobre a lembrança de algum feriado;

** influência da chuva que entenebrece minha janela de vidro.

Era noite. Véspera de feriado.

No carro, com alguma música bem calma que faz afronta ao todo, buzinas que ecoam pelas pontes, uma dor de cabeça irritante e pitadas de nostalgia: o Rio Tietê virou palco. Em todos esses anos, essa é a primeira vez que encontro beleza em tal cenário. É incrível como a cidade de São Paulo passa inteirinha por dentro das águas do Rio. Contagiante como as luzes dos postes e dos carros se espraiam e misturam-se com as espumas. A sensação de cidade me abarca, bem como a solidão e o escuro. Agridoce. Extraordinário como o reflexo distorcido de uma cidade distorcida se vislumbra. Incoerente. Inexplicável.

silencio

persona

Às vezes, o tal do Silêncio me vê andando por aí e, propositalmente, esbarra em mim. Cumprimenta-me com um aceno de chapéu. Muda o rumo. Segue comigo em direção a minha casa. Uma certa angustia um tanto confortável se instaura. É saudade de sentir. E assim caminhamos lado-a-lado.

Abre a porta para mim como se o Diabo me abrisse a porta do Inferno. Entra sem convite. Passa o café. Senta-se a mesa e me observa com indiferença: como se essa cena fosse parte cotidiana das nossas vidas. Fixa seu olhar desesperançoso sobre meus movimentos como se soubesse que eu estava prestes a fazê-los. Talvez me conheça melhor que ninguém. Isto me intriga. Então, a avalanche incômoda, que há tempos se mantinha comigo, sobressai. Desestabiliza-me.

Sentindo minha falta de nexo, meu descompasso comigo mesma, decide, então, ficar para o jantar. O Silêncio e eu. Assim, entre um dia quente e seco e molhado, o tempo passa. E o vermelho da expressão denuncia. E a cena se repete com a mesa posta.

Porventura, um talher esbarra no outro, os pneus dos carros cantam do lado de fora, uma criança ri, o vento bate nas portas de vidro e o cigarro queima. Outrora, um soluço ecoa pelos corredores e os tímpanos sensíveis se incomodam. Em contrapartida, os olhos adaptam-se aos focos de luz amarela em meio às luzes apagadas. Não houve noite. Dois dias em um prolongado.

O Sol se pôs. A noite caiu. A neblina fria do início do dia se mistura com o Sol que nasce. E assim, firmou-se a reclusão pré-disposta que venho lapidando há dias. As renuncias às vezes ininteligíveis mais do que partem, partem-se. Não é o anuncio de uma recaída, nem o medo da mudança. É a vontade inflamada de, por muitos instantes, não estar por entre as gentes. É a eterna luta do meu etéreo bipolar.