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do minuto

acordar. café. carro. reunião. carro. almoço. reunião… um amigo do passado… mesa. cigarro… a rotina me engoliu. o dia enrijecendo cada vez mais. subitamente, uma avalanche tomou meu corpo. um incomodo tão imediato. fisgada de dor, daquelas que a dúvida da lágrima paira na mente. então, passou… mesa. carro. av paulista… outra pessoa do passado… não senti nada ruim. às vezes o passado não desperta apenas lembrança intragável… sorri. carro. casa. moletom. netflix.

não ando densa. ainda que a vista continue pesada e os olhos se apertem. ainda que por dentro seja tudo tão imensamente hermético. posso dizer que não sinto com frequência. sinto e deixo de sentir. tão imediatamente quanto piscar os olhos. tão rápido e ao mesmo tempo aterrorizante, que a respiração falha… e a incerteza oscilante: apatia ou vivacidade?

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do ______ vazio

_ ultimamente a mente tem colocado para o corpo a tarefa de resolver as emergências. o corpo realmente não sabe se aguenta mais. a mente se esforça para manter o maquinário funcionando. independente do dano para a alma.

Não sou. Não sei se algum dia fui. Se sou, sigo sendo nada. Um vazio que se instalou. Uma eterna lacuna em branco. Que é nada. Porém, sinto. Uma dor brutal da profundeza se espraia. Dor física. A cabeça não elabora… A guerra. O choro. Estatelada no chão. Por horas. Dirigindo. O choro. O corpo retorcido. Nada paira na mente. Vazia. Solitária. Apenas a dor. A mágoa. A vontade ensandecida de enlouquecer. Gritar. Respirar fundo. O pensamento centrado na dor física. Em “não aguento mais” repetidamente. Um, dois, três, quatro dias. Enrijecida de novo. A vida que continua. Nada muda. O baque de quando tudo muda rápido demais. Saiu da alçada. O corpo que quer desistir. O vácuo que a mente se torna. Vida. Rotina. Desconforto. Máquina. Concreto. Sozinha.

do fluxo

não sei como escrevo… o porquê é óbvio: escrevo para arrancar essa espécie de febre e dor dos sentires abundantes… sinto demais. ou, em boa parte do tempo, de menos – em escala: da ordem dos números negativos… escrevo a dor física. a dor dor. escrevo os concretos que se transformam em paranoias e desconforto.. os empecilhos da sobrevivência e sanidade. poucas vezes fui completamente subjetiva. ainda que a dor na alma seja, por definição, abstrata… o corpo sempre denuncia que não vou bem internamente, antes mesmo da mente alertar… a questão é que são raros os momentos que a febre de subjetividade adentra o corpo e consigo traduzi-la. mesmo que ela seja constante… mesmo me sentido complexa. mesmo quando me sinto nada. mesmo quando deliro… talvez, seja problemas de confiança… em mim mesma… comigo mesma… dentro de mim… porventura, vergonha não diagnosticada. e quando escrevo devaneios e confissões duras no caderno vermelho, nunca volto a ler. os tabus da minha vida… não sei. é só um fluxo de consciência que se instalou na cabeça. algumas palavras desconexas. apenas.

do (possível) crepúsculo

_ das raras e boas lembranças que o Facebook tem me proporcionado.

_desculpe-me qualquer incoerência, mas como ser coerente quando se expressa movimentos incompletos da alma em um Mundo de concretos?

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Deparei-me com uma fotografia minha de dois anos atrás tirada pelo El País na Praça do Ciclista. Eu estava na concentração de um dos atos contra as injustiças da Copa. Não conseguirei ter precisão, mas examinei a foto minuciosamente por bons e longos minutos. Alguma coisa se remexeu dentro de mim. Talvez, um misto de saudade e angústia que fez com que meu coração acelerasse e, logo, milhões de pensamentos aterrissaram na mente.

De lá para cá, eu mudei… Mais do que eu gostaria de admitir, a minha relação com Mundo também mudou. Esta que fora sempre oscilante, conseguiu alcançar seu auge em euforias e sua decadência em lamentos.

Posso dizer que, ao observá-la, um sorrateiro orgulho me preencheu: o passado não me condena, mas dá esperanças de que o futuro ainda me pertence. Eu, mulher, estava em um protesto (não era o primeiro e, muito menos, o último). Ocupando um espaço público. Sendo um ser politicamente ativo. Remeteu ao tempo que eu finalmente me dei conta de que meu cabelo não precisava ser comprido para que, ainda assim, eu fosse mulher e feminina. Eu vestia uma blusa branca e não estava sendo escrava dos aros do sutiã. Ainda, com segurança, deixei que me fotografassem.

No entanto, diante do constante movimento de romper-fixar que mantenho com o Mundo, a imagem do retrato desvaneceu. Desde que os meus ninguéns acordaram e emergiram do mais profundo de mim, a guerra interior se sobressai em detrimento do cotidiano, dos desejos, dos sonhos. Eu costumo perder batalhas. Muitas vezes porque a disputa é desleal. O patriarcado está constantemente tencionando para que culpas e inseguranças as ganhem. Nesse movimento truncado e esgotante, o corpo acaba que não aguenta: existem vozes atormentando a autoestima; outras reafirmam que o Mundo não vale a pena; algumas ainda reforçam todos os perigos de ser mulher e andar nas ruas; os sussurros constantes de que jamais serei suficiente. O medo me asfixia. Chega a ser claustrofóbico viver dentro de si mesma quando as estruturas da sociedade potencializam as fragilidades da própria existência.

Eu sinto saudade de pisar na rua. Gritar palavras de ordem. Sentir que sou capaz de conversar satisfatoriamente sobre política, de novo. Sinto saudade dos breves lapsos em que eu sentia algo próximo ao pertencer.

Estou há algumas semanas dizendo que a apatia tem me enrijecido, deixando-me fria. Essa saudade, em contrapartida, cálida. Como se o verão tivesse chegado dentro de mim – a guerra persiste, porém, com algumas esquinas rutilantes… Eu acho que, hoje, é deste ponto que eu parto. Penumbras. À luta.

Dos lampejos que reacendem a coragem de enfrentar a ordem – de fora para dentro, vice-versa. A vontade de nos ultrapassar me toma. Superar o que fui, o que sou. Seguiremos tentando romper as amarras coletivamente. Cada dia mais fortes! O empoderamento continuará na ordem do dia para toda a Vida. Podemos!

das escolhas

eu não fui inclusa. entendi que o Mundo que me rodeia vem cortando nossos laços há tempos. às vezes, parece que ninguém ficou. questiono se alguma vez alguém esteve. realizei que não tenho mais espaço nas vidas, inclusive na minha. resolvi que preciso de mais espaço. chamar de meu. eu. singular.

gostaria de ter rompido com o Mundo antes que ele o fizesse. assim, talvez, doesse menos. fosse tristeza controlada. agora, pairo em tentativas vermelhas de controlar o incontrolável em um contante movimento de endurecer. finalmente, alguém tomou esta decisão por mim: devo ser muralha. romper nunca pareceu tão difícil.

de hoje

eu não sei dizer ao certo o que eu senti. só tenho a completa certeza de que era triste e angustiante. um pouco sufocante também. às vezes chega a doer um pouco. na verdade, sinto o coração parar e voltar. ou mesmo queimar. as mulheres que me habitam também não me dão um tempo, cada uma me diz uma coisa… elas são tão diferentes que viro claustrofóbica dentro de mim mesma. uma avalanche de sentimentos contraditórios me ataca. dos meus devaneios sobre tratar um amigo como um mero colega.

a vida é feita de escolhas.

ninguém nunca disse que elas seriam fáceis.

ninguém nunca disse que elas seriam suas.

amar, amor. {da confusão}

_ rascunho de um dia que eu me peguei pensando no que seria o Amor. fiquei ainda mais confusa. não sou boa com os sentires que não sinto.

Eu nunca pensei que escreveria sobre o amor. Sempre achei que escrever sobre isto estava além das minhas aptidões. Para além das minhas vivências. E, de fato, está. Digo por aí convicta da minha relacionamentofobia. Desacreditada totalmente no amor. Ou talvez não. Porém, a noite e o vinho estão me conduzindo ao inebriante pensamento de como é o Amor. Não os relacionamentos, o Amor.

Quem seria o Amor? Será que existe mesmo ou é o romantismo misógino manipulando até o que, em tese, se sente? Às vezes, acho que essa concepção romantizada do Amor atrasa nosso amor próprio. Sempre, para ser sincera. Como, então, encontrar a plenitude do amor se não sentimos tal grandiosidade por nós mesmas?… Ainda não me acertei comigo mesma, como então amar o desconhecido? E mesmo que conhecido como saber então que se ama?

Que coisa é o Amor. Amar, amor. Cadê? Existe?

Perguntas sem nexo. Palavras jogadas… É assim confuso quando se escreve sobre o que não é tangível. Sobre o que dá medo. Complexidades.

No limite, talvez eu saiba algo sobre o amor: mais da metade dxs apaixonadxs de plantão não sabem o que ele é. Como pode o Amor ser isto? Relacionamentos abusivos nos quais pessoas se tornam propriedades de acesso privado. Como o Amor pode ser assim tão incongruente? O Amor não se presta por gênero, pelo menos não na minha idealização. De qualquer forma, também recuso-me a acreditar que o Amor só sirva para datas comemorativas ou audiência das comédias românticas… Esse falso Amor do capitalismo. A construção perfeita para continuar oprimindo. Nada mais hipócrita.

Confesso que nunca tive um amor. Talvez, rascunhos do que poderia ser, mas também nenhum que valha a pena mencionar. Nestas relações forjadas, é sempre tudo tão intenso e avassalador que, na minha cabeça, não poderiam ser o Amor. Na certeza de que se me perco de mim, então não me completa. Porém, deve ser o Amor algo que nos complete ou que nos reafirme? Ou, então, algo que nos reinvente?

São tantas perguntas sem respostas. Tanto ciúmes e enchentes nos transbordando em vão. Matando uma a uma de nós.

Mas, também, poderia o amor ser leve e sutil e ainda assim ser único? Ou é medíocre a ponto de entendermos e sentirmos e desfrutarmos ordinariamente? Sem singularidade.

O amor é multifacetado.

 

dos meus ritos {adeus, 2015}

Eu sei que estou atrasada, para variar.

A verdade é que eu precisava sentir o adeus de Dois Mil e Crise para seguir adiante.

Por meses, fechei os olhos para a vida. Larguei as rédeas e esforcei-me para não lembrar do paradeiro. Segui o roteiro que me fora dado. Fui alguém que queriam que eu fosse. Eu não sou. Padecer então era tudo que eu poderia viver. Achei que nunca mais necessitaria abrir os olhos de novo. Caso contrário, significaria, no limite, aceitar e encarar o “realmente”. Achei que nunca estaria preparada para dizer adeus. Não sou boa com despedidas.

Foi vendaval. Violento. O canto triste das aves. O ritual que o corpo clamava há dias – uma dor nas costas se instalou e denunciou que já estava na hora. Minha mente, todavia, fez de tudo para protelar esse acontecimento. Inocente, fechei os olhos. Uma ventania me tirou o ar. Fui obrigada a, lentamente, deixá-los abertos. Desengasguei-me. No escuro do quarto. Onde as lágrimas se camuflam no rosto. E os inchaços não são vistos. No único lugar que fotos podem ser rasgadas e objetos se quebram. E o silêncio impera… Na cerimônia em que nos ultrapassamos e rompemos com o Mundo antes dado. Crise. Episódio.

Renasço assim da simbiose quase perfeita de quem eu fui mas, principalmente, das possibilidades de quem serei. Fênix.

do existir

Acordei amarga e pesada. A melancolia veio passar uma temporada em casa, nesse seu movimento constante de ir e voltar. Às vezes, até de permanecer.

Os olhos mantém-se no meio termo do aberto e do fechado. A boca apenas esboça aquela retração insatisfeita. O rosto expressa a dor que a alma e o corpo partilham. O corpo e a alma em simbiose. Parece-me que às vezes minhas feições cansaram de interpretar. Cansaram do descompasso com a alma. Esforço. A mente me suga e, aos poucos, destrói-me.

Sempre à deriva na própria existência, padeço. Na beira do abismo que separa o eu dos meus ninguéns, o silêncio dos meus nadas… Sou nada, no final das contas. Na bem das verdades, toda essa farsa de existir e viver e sobreviver é um grande emaranhado de nadas. Vivemos no nada e apenas abaixamos a cabeça complacentes a isto. Pego-me pensando amiúde neste enorme nada. Debalde. Ainda, é como se arrancassem à sangue frio, dia após dia, os restos de humanidade que me sobraram na alma.

 

desafia

Acordei, há alguns dias, com as dores do Mundo confinadas no âmago. Tais que desafiam a Física e surgem em espaços inexistentes. Encaixam-se em loci que eu mesma me aperto dentro de mim. A disputa se acirra. Pois bem, não me atrevo a escrever sobre o Mundo que não pertenço. Nas minhas Confissões, eu mal me encaixo, dirá o Mundo.