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do (possível) crepúsculo

_ das raras e boas lembranças que o Facebook tem me proporcionado.

_desculpe-me qualquer incoerência, mas como ser coerente quando se expressa movimentos incompletos da alma em um Mundo de concretos?

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Deparei-me com uma fotografia minha de dois anos atrás tirada pelo El País na Praça do Ciclista. Eu estava na concentração de um dos atos contra as injustiças da Copa. Não conseguirei ter precisão, mas examinei a foto minuciosamente por bons e longos minutos. Alguma coisa se remexeu dentro de mim. Talvez, um misto de saudade e angústia que fez com que meu coração acelerasse e, logo, milhões de pensamentos aterrissaram na mente.

De lá para cá, eu mudei… Mais do que eu gostaria de admitir, a minha relação com Mundo também mudou. Esta que fora sempre oscilante, conseguiu alcançar seu auge em euforias e sua decadência em lamentos.

Posso dizer que, ao observá-la, um sorrateiro orgulho me preencheu: o passado não me condena, mas dá esperanças de que o futuro ainda me pertence. Eu, mulher, estava em um protesto (não era o primeiro e, muito menos, o último). Ocupando um espaço público. Sendo um ser politicamente ativo. Remeteu ao tempo que eu finalmente me dei conta de que meu cabelo não precisava ser comprido para que, ainda assim, eu fosse mulher e feminina. Eu vestia uma blusa branca e não estava sendo escrava dos aros do sutiã. Ainda, com segurança, deixei que me fotografassem.

No entanto, diante do constante movimento de romper-fixar que mantenho com o Mundo, a imagem do retrato desvaneceu. Desde que os meus ninguéns acordaram e emergiram do mais profundo de mim, a guerra interior se sobressai em detrimento do cotidiano, dos desejos, dos sonhos. Eu costumo perder batalhas. Muitas vezes porque a disputa é desleal. O patriarcado está constantemente tencionando para que culpas e inseguranças as ganhem. Nesse movimento truncado e esgotante, o corpo acaba que não aguenta: existem vozes atormentando a autoestima; outras reafirmam que o Mundo não vale a pena; algumas ainda reforçam todos os perigos de ser mulher e andar nas ruas; os sussurros constantes de que jamais serei suficiente. O medo me asfixia. Chega a ser claustrofóbico viver dentro de si mesma quando as estruturas da sociedade potencializam as fragilidades da própria existência.

Eu sinto saudade de pisar na rua. Gritar palavras de ordem. Sentir que sou capaz de conversar satisfatoriamente sobre política, de novo. Sinto saudade dos breves lapsos em que eu sentia algo próximo ao pertencer.

Estou há algumas semanas dizendo que a apatia tem me enrijecido, deixando-me fria. Essa saudade, em contrapartida, cálida. Como se o verão tivesse chegado dentro de mim – a guerra persiste, porém, com algumas esquinas rutilantes… Eu acho que, hoje, é deste ponto que eu parto. Penumbras. À luta.

Dos lampejos que reacendem a coragem de enfrentar a ordem – de fora para dentro, vice-versa. A vontade de nos ultrapassar me toma. Superar o que fui, o que sou. Seguiremos tentando romper as amarras coletivamente. Cada dia mais fortes! O empoderamento continuará na ordem do dia para toda a Vida. Podemos!

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inspirações #1

“Sim, minha força está na solidão.
Não tenho medo nem das chuvas tempestivas,
nem das grandes ventanias soltas,
pois eu também sou o escuro da noite.”

Clarice Lispector.

Depois que meu aniversário passa e o fim do ano começa a se aproximar e tomar mais contorno, tenho mania de revisitar todas as grandes mulheres da minha vida. Ou, também, descobrir um Mundo de mulheres contemporâneas, vivas. Quiçá, mania não seja a melhor palavras, “necessidade” acho que contempla mais meu estado de espírito.

Ano passado, estava enlouquecida atrás de séries de TV que colocassem mulheres como protagonistas. Nunca pensei tanto no papel que nós cumprimos na televisão.

Este ano, meu coração quer escritoras – as minhas grandes inspirações. Essa entrevista que Clarice concedeu para a TV Cultura em 1977 é fantástica e eu não paro de assistir desde Segunda-feira. Decidi, então, compartilhar aqui algo que não seja só os meus sentires abundantes ou não sentires recorrentes. Algo mais empoderador do que o de costume.

Resistência.

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O cabelo sempre fora uma maneira de expressão máxima do meu eu – até a instabilidade intrínseca da alma é denunciada pelas mudanças constantes que promovo no topo da minha cabeça. Desde 2013, permaneço com cortes que não ultrapassam meu queixo. Há uma semana, adotei o curto da foto. Curtíssimo. A liberdade da nuca não é apenas a liberdade da nuca. É, decerto, a libertação de uma das algemas que me mantém sob opressão constante. No entanto, ao mesmo tempo, não é liberdade de nada, posto que teimam em delimitar o que devo ou não fazer com o cabelo e corpo. Essa relação dialética me atormenta a cada olhada no espelho. Todos os dias pelas ruas.

Olho no espelho e… Espetacular! Outros momentos, a auto-estima se esgota e culpo todos esses pequenos fios pela aparência menos “feminina” que minha mente constrói.

Velada. Oprime-me. Pego-me resistindo, então. Emancipando-me. Fortalecendo.

recomendo: obvious child

Jenny-Slate

* um pouco deslocado do todo, mas existem coisas que merecem ser compartilhadas.

** acabei de assistir e estou animada, não posso deixar isso passar em branco

*** como raramente (aka nunca) escrevo sobre esse tipo de coisa, talvez o texto fique meio confuso… my bad, mas tá valendo. tenham paciência!

À primeira vista, pode parecer um filme bobinho. Obvious Child em letra garrafais brancas, o fundo rosa-choque e uma mulher no canto. Ainda, se olhar a página do Facebook, parece mais uma comédia romântica na qual a personagem principal fica grávida. Bem, foi isso que eu pensei na madrugada passada e acabei assistindo “The Grand Budapest Hotel”.

O filme retrata a vida da aspirante a comediante Donna Stern (Jenny Slate) – uma mulher de vinte e tantos anos. Pois bem, em linhas gerais, depois de one-night stand com Max (Jake Lacy), Donna engravida. Sua decisão é abortar. Em nenhum momento do filme o aborto é moralmente questionado. Em nenhum momento Donna recua. Mas, o mais excelente é que a opinião de Max não importa. Afinal, o corpo é de Donna, it’s her call.

Para além disso, de uma certa forma, é colocada a questão da legalização do aborto e sua necessidade principalmente ao que tange a saúde da mulher. Em uma das passagens do filme, a mãe de Donna relata que já havia abortado e que, como naquela época era ilegal, o procedimento fora feito em um apartamento em cima da mesa da cozinha. Ela e mais muitas outras mulheres. O que nos leva a duas questões: as condições precárias dos locais em que normalmente são feitos os abortos e também como tais não são casos tão isolados assim. Porém, Obvious Child reproduz uma visão um tanto clássica e estereotipada: jovem de 20 e tantos anos, solteira, que mal consegue se sustentar, engravida e resolve abortar.

No entanto, no Brasil, a realidade é outra: a maioria das mulheres que abortam estão na faixa dos 30-39 anos, já têm filhos, religião e são casadas. Além disso, não existe recorte de classe no que tange a decisão de fazê-lo: mulheres pobres e ricas abortam todos os dias. Todavia, é inegável que os riscos que uma mulher rica corre durante o procedimento na clínica clandestina que seu dinheiro pôde pagar são surpreendentemente menores quando comparados aos riscos da mulher pobre (normalmente, negra) nas clínicas de garagens, onde muitas vezes tudo que se precisa é uma agulha de crochê.

Posto isso, é necessário que façamos esse debate abertamente e com o conjunto da sociedade, pois quando discutimos a legalização do aborto, não estamos fazendo apologia, muito menos exaltando tal prática, estamos apontando o índice de mulheres que morrem por terem realizado abortos inseguros, bem como, levantando a discussão acerca da falta de educação sexual e políticas de contracepção no SUS, principalmente nas periferias. Quantas mulheres terão que falecer para que o Estado compreenda que criminalizar não é a saída? Outrossim, é igualmente um debate sobre a liberdade de escolha das mulheres e o direito sobre o seus próprios corpos!

Obvious Child é um filme muito pedagógico e delicado ao retratar um tema tão caro para todas nós, mulheres. Claro que existem várias ressalvas, como, por exemplo, o fato de que não existem personagens negrxs. Mas, ainda assim, fez-me pensar bastante na minha condição enquanto mulher – até porque nada mais é do que a caminhada de auto-descobrimento e de empoderamento de Donna.

cansa, menina.

Cansa ouvir todo dia que não me cuido. Ouvir todo dia sobre meus quilos a mais, sobre meus olhos fundos, sobre o não passar maquiagem, sobre minhas roupas e combinações. Também me cansa a fatídica pergunta “E a academia, está indo?”. Cansa ouvir todo dia que eu deveria ser menos bruta e mais mansa. Incomoda o não-estar motorista. Cansa ouvir todo dia que eu também não tenho postura, que joguei anos fora, que não me banco. Cansa aguentar o peso nos ombros.

Cansa cair na mesma contradição todo dia, quando depois de tudo, perco-me no meu reflexo do espelho: querendo não ser eu, mas ainda não querendo ser outra pessoa.

PS: Em outro encontro, discorro melhor sobre meu cansaço. Hoje, presto-me apenas a colocar para fora, em meias palavras, o que me sufoca.

de afrodite até seth

Vez ou outra, registrei nos autos – quase como uma súplica – que queria fogo, que queria quente. Posto isso, digo, portanto, que já sou Vermelho. Já não espero que a vida sane meus anseios ou que realize meus desejos. Eu já faço o fogo. Já moldo com minhas próprias mãos o quente.

                Mesmo distinguindo-se por nomes e tons – indo do espectral carmim até o cádmio quase laranja, passando len-ta-men-te pelo CA-LOU-RO-SO escarlate –, meu vermelho de 14 e Novo é apenas um: qualquer que seja, desde que demarque o recomeço. Do Mundo, quero e sinto cada tudo pioneiro, quero-me primeira e nova naquilo que chamo de minha vida. Quero VER MELHOr.

                Porque vermelho é magia da fênix que revive cada vez que se falece em cinzas. É poder. É a invencibilidade composta ainda por uma mistura de  proteção, força e intimidação. Além do mais, vermelho significa “cor mais viva” e fica bem ali no limite do espectro. Sendo que neste, não deriva de ninguém, é cor primária, é a onda mais longa. É a primeira cor a ser percebida.

                É a cor de Dionísio, de Ares… Mas, principalmente, de Afrodite. É da cor do sangue, representante da carne que seduz, que encoraja, que pro-vo-ca, que proíbe. É a sensualidade que inquieta. É do tom do batom vermelho tônico, cálido, ácido… Aumentando a pulsação. Expondo o instinto. É, sem dúvidas, indecente, imoral… Diga-me, qual a graça neste Mundo senão ser ímpar? Ou, ao menos, se sentir ímpar. Estar ímpar.

                Confesso que nada me faz tão bem quanto o gosto de um vermelho de paixão nos lábios. O vermelho da caçada, da chama inconfundível dos mistérios da vida. Estes que, bem como o escarlate, são ambíguos e duos. É exatamente a chama que queima de amor e ira. O “Boa sorte” caminhando lado a lado com Seth – representante da desordem, do ciúme e do controle.

                Sou de todos os tons, de todos os jeitos. Sou da cor da revolução. Sou da cor de Marte. Sou da cor do inflamável apaixonante. Sou da cor do coração e do ateu. Sou, ainda, da cor do álcool que desce queimando a gar-gan-ta. Sou a cereja do-ci-nha. Sou. Sol.

PS: Se não fosse a Babs, esse texto nem existiria. Já que a ideia de escrever sobre a minha nova política e única meta para 2014 foi dela. Obrigada, dear.

não sou de atenas

“Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem” (Rosa Luxemburgo)

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Eu enquanto ser humano, repudio qualquer prática que oprima, ofenda, exponha de forma grotesca qualquer outro ser humano em detrimento de sua imagem, postura, escolhas. Eu enquanto estudante, repudio qualquer prática que cale as vozes do meu grupo. Eu enquanto mulher, portanto, repudio qualquer prática que constranja e diminua a imagem de qualquer mulher na face da Terra. Em suma, não me calo por não me adaptar a uma sociedade na qual o machismo ainda está enraizado, ainda é tratado como normal, ainda é passível de risos e brincadeiras.

E, hoje no fim da tarde, eu descobri uma página no Facebook da maneira mais trágica possível: um ataque machista avaliando minha imagem e expondo-a com um vocabulário baixo, caluniando sobre onde eu vou (ou deixo de ir), o que eu quero com certas atitudes e todo o “tesão” que o autor sente ao me ver. Partindo do fato de que a página em questão tem seus moderadores, a maioria dos seguidores e o alvo das postagens pertencentes à Universidade de São Paulo: eu venho por meio deste denunciar o machismo de cada dia dentro da maior e “melhor” universidade da América Latina.

Na postagem, alega-se que eu vivo na Instituição em questão na busca da “pica” de algum cara. Dois pontos devem ser destacados a partir dessa calúnia: 1) Esclarecendo, eu frequento tal lugar por ser um espaço dentro da universidade que eu estudo e um espaço que faz parte do meu cotidiano, de forma que o motivo está longe de ser o dito, ou seja, o autor pega um ponto da minha vida e sem saber nada sobre ela, assume uma postura machista para justificá-la ao afirmar que eu só estou lá atrás dos estudantes e 2) E se fosse? Como isso afeta a vida dele? E, onde está escrito na Constituição Federal que eu não tenho direito sobre mim mesma e meu corpo? Então é pelo fato de eu ser Mulher que os meus interesses em certos lugares são considerados mais suscetíveis ao julgamento do que a mesma postura de um Homem nas mesmas condições? Merece destaque também o contexto do dia: se eu vou tanto assim a tal faculdade, por que o exercício de vexação foi feito logo no dia que eu estava lá fazendo campanha para as eleições do CONUNE? No fundo, o debate se baseia certamente no fato de eu ser mulher, condicionando que eu não posso ter amigos homens sem que existam interesses obscuros, que eu não posso beber em um lugar geralmente frequentado por homens que eu estou na busca de uma “pica” e, por ultimo, mas não menos importante, que lugar de mulher não é na política.

Alguns homens (e, por incrível que pareça mulheres, também) vão ler isso e achar exagero da minha parte vir reclamar dessa conduta e dizer “Ah, para, leva na brincadeira… era uma brincadeira, olha pra essa página”. E, eu digo: eu não me senti apenas ofendida, também me senti desrespeitada, mas isso sou eu, que não ligo muito para o que pensam de mim, o que me perturba mesmo é saber que o que postaram não é um caso isolado, muitas outras meninas ou mulheres são tratadas da mesma forma em algumas postagens daquela página e de outras páginas e na vida, porém, nem todas levam do jeito que eu estou levando, algumas caem em um limbo depressivo ao ver suas imagens e nomes tão expostos, outras se sentem tão humilhadas que mudam toda uma rotina e comportamentos próprios… E, ainda assim, vão dizer que a atitude dessas meninas é exagerada. Sendo que esse é um dos pontos que eu venho expor: o despreparo da nossa sociedade em identificar o machismo.

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Diariamente, desde crianças até a idade adulta, somos todos bombardeados pela grande mídia com programas, propagandas e campanhas que estereotipam os gêneros, que naturalizam as práticas machistas, de forma que este cenário torna-se totalmente normal, uma vez que não é tratado como humilhante, mas sim com risadas. Não podemos tolerar que ainda hoje mulheres sejam tratadas como objetos, nem ao menos, consideradas um; não podemos deixar que o machismo se atrele ainda mais aos costumes, precisamos combatê-lo e gritar para os 4 ventos que não somos submissas ao patriarcado, que nossa roupa não dita nossos interesses, que somos iguais a qualquer homem no campo dos negócios. Enquanto o machismo for consentido e tratado de modo congênito pela sociedade, nenhuma mulher estará livre de tal violência. E, jamais encontraremos solução para isso, se continuarmos a ocultar esses crimes de coação moral ou física, pois, uma vez que se denuncia, estamos não apenas protegendo a nós mesmos, mas a maioria das mulheres que, de uma em uma, tomam coragem para se libertar.

Por fim, não existe hora, dia, nem lugar exato para que tais agressões aconteçam. Nada justifica essas ações além da premissa maior de que a sociedade é machista historicamente. Somos todos, em algum nível, machistas; só que existe a diferença básica entre aqueles que são coniventes e aqueles que lutam contra essas práticas. A violência não é normal, admissível e trivial. Não podemos ser cúmplices dessas situações, muito menos disfarçar seus ocorridos. Nenhum espaço é espaço para práticas machistas e misóginas. Basta de machismo na sociedade, em todas as Universidades, na Universidade de São Paulo, no Movimento Estudantil, no dia-a-dia de cada Mulher.

 

MACHISTAS E MISÓGINOS NÃO PASSARÃO!

A luta das mulheres muda o Mundo.