Tag Archives: cabeça

do fluxo

não sei como escrevo… o porquê é óbvio: escrevo para arrancar essa espécie de febre e dor dos sentires abundantes… sinto demais. ou, em boa parte do tempo, de menos – em escala: da ordem dos números negativos… escrevo a dor física. a dor dor. escrevo os concretos que se transformam em paranoias e desconforto.. os empecilhos da sobrevivência e sanidade. poucas vezes fui completamente subjetiva. ainda que a dor na alma seja, por definição, abstrata… o corpo sempre denuncia que não vou bem internamente, antes mesmo da mente alertar… a questão é que são raros os momentos que a febre de subjetividade adentra o corpo e consigo traduzi-la. mesmo que ela seja constante… mesmo me sentido complexa. mesmo quando me sinto nada. mesmo quando deliro… talvez, seja problemas de confiança… em mim mesma… comigo mesma… dentro de mim… porventura, vergonha não diagnosticada. e quando escrevo devaneios e confissões duras no caderno vermelho, nunca volto a ler. os tabus da minha vida… não sei. é só um fluxo de consciência que se instalou na cabeça. algumas palavras desconexas. apenas.

Advertisements

do bloqueio

_ não é verdade, tenho escrito bastante nos últimos dias. porém, o coração quando escreve às vezes demora um tempo para se acertar com a coerência.

Existe um eu em mim que sente prazer sádico em bloquear qualquer outra expansão do meu Eu. Sinto tal se contorcer de felicidade em saber que, por algum tempo, meus demônios estarão enjaulados. A apatia me faz pragmática. Assim, estava com dificuldade em escrever, já que, se o fizesse, sairiam de mim duras palavras lotadas de cimento e pólvora. E de nada adiantaria… Meu coração precisa escrever em metáforas para que se acalme. E meus demônios se libertem. E um golpe de ar fresco me acerte.

dos meus ritos {adeus, 2015}

Eu sei que estou atrasada, para variar.

A verdade é que eu precisava sentir o adeus de Dois Mil e Crise para seguir adiante.

Por meses, fechei os olhos para a vida. Larguei as rédeas e esforcei-me para não lembrar do paradeiro. Segui o roteiro que me fora dado. Fui alguém que queriam que eu fosse. Eu não sou. Padecer então era tudo que eu poderia viver. Achei que nunca mais necessitaria abrir os olhos de novo. Caso contrário, significaria, no limite, aceitar e encarar o “realmente”. Achei que nunca estaria preparada para dizer adeus. Não sou boa com despedidas.

Foi vendaval. Violento. O canto triste das aves. O ritual que o corpo clamava há dias – uma dor nas costas se instalou e denunciou que já estava na hora. Minha mente, todavia, fez de tudo para protelar esse acontecimento. Inocente, fechei os olhos. Uma ventania me tirou o ar. Fui obrigada a, lentamente, deixá-los abertos. Desengasguei-me. No escuro do quarto. Onde as lágrimas se camuflam no rosto. E os inchaços não são vistos. No único lugar que fotos podem ser rasgadas e objetos se quebram. E o silêncio impera… Na cerimônia em que nos ultrapassamos e rompemos com o Mundo antes dado. Crise. Episódio.

Renasço assim da simbiose quase perfeita de quem eu fui mas, principalmente, das possibilidades de quem serei. Fênix.

do sorriso

** de algum dia desses que não me culpei por sorrir.

Sorria. Perguntei o motivo. Permaneceu sorrindo como se não me ouvisse. Fitava-me deliciosamente. Sorria tanto que, em certo momento, eu poderia jurar que era capaz de contar todos os seus dentes. E me olhava. Incômodo. Era como se borboletas recém nascidas voassem no estômago fazendo-me cócegas. Contagiada fui pelo sorriso. Logo tentei não sorrir. Tentei conter. Tentei de tudo. Mas continuava me observando. Sequer piscava. Tentei desviar o olhar. Pois, assim, talvez, as borboletas se aquietassem. Insuficiente. Meu corpo fora tomado por esta figura sorridente. Espantei-me quando percebi meus músculos faciais dando contornos para a minha boca. Segui sorrindo. Incontrolável. Regozijo. Um excesso se formou na garganta feito um bolo de júbilo excêntrico e fluido. Faltou-me até ar… Naquele sorriso efusivo. Largo. Cheio de energia. Reluzente… Ao passo que tal alegria me invadia, nossa distancia aumentava. E aumentava. E aumentava… Anoiteceu. Desvaneceu.

do existir

Acordei amarga e pesada. A melancolia veio passar uma temporada em casa, nesse seu movimento constante de ir e voltar. Às vezes, até de permanecer.

Os olhos mantém-se no meio termo do aberto e do fechado. A boca apenas esboça aquela retração insatisfeita. O rosto expressa a dor que a alma e o corpo partilham. O corpo e a alma em simbiose. Parece-me que às vezes minhas feições cansaram de interpretar. Cansaram do descompasso com a alma. Esforço. A mente me suga e, aos poucos, destrói-me.

Sempre à deriva na própria existência, padeço. Na beira do abismo que separa o eu dos meus ninguéns, o silêncio dos meus nadas… Sou nada, no final das contas. Na bem das verdades, toda essa farsa de existir e viver e sobreviver é um grande emaranhado de nadas. Vivemos no nada e apenas abaixamos a cabeça complacentes a isto. Pego-me pensando amiúde neste enorme nada. Debalde. Ainda, é como se arrancassem à sangue frio, dia após dia, os restos de humanidade que me sobraram na alma.

 

inspirações #1

“Sim, minha força está na solidão.
Não tenho medo nem das chuvas tempestivas,
nem das grandes ventanias soltas,
pois eu também sou o escuro da noite.”

Clarice Lispector.

Depois que meu aniversário passa e o fim do ano começa a se aproximar e tomar mais contorno, tenho mania de revisitar todas as grandes mulheres da minha vida. Ou, também, descobrir um Mundo de mulheres contemporâneas, vivas. Quiçá, mania não seja a melhor palavras, “necessidade” acho que contempla mais meu estado de espírito.

Ano passado, estava enlouquecida atrás de séries de TV que colocassem mulheres como protagonistas. Nunca pensei tanto no papel que nós cumprimos na televisão.

Este ano, meu coração quer escritoras – as minhas grandes inspirações. Essa entrevista que Clarice concedeu para a TV Cultura em 1977 é fantástica e eu não paro de assistir desde Segunda-feira. Decidi, então, compartilhar aqui algo que não seja só os meus sentires abundantes ou não sentires recorrentes. Algo mais empoderador do que o de costume.

desafia

Acordei, há alguns dias, com as dores do Mundo confinadas no âmago. Tais que desafiam a Física e surgem em espaços inexistentes. Encaixam-se em loci que eu mesma me aperto dentro de mim. A disputa se acirra. Pois bem, não me atrevo a escrever sobre o Mundo que não pertenço. Nas minhas Confissões, eu mal me encaixo, dirá o Mundo.

Resistência.

IMG_20150830_210401

O cabelo sempre fora uma maneira de expressão máxima do meu eu – até a instabilidade intrínseca da alma é denunciada pelas mudanças constantes que promovo no topo da minha cabeça. Desde 2013, permaneço com cortes que não ultrapassam meu queixo. Há uma semana, adotei o curto da foto. Curtíssimo. A liberdade da nuca não é apenas a liberdade da nuca. É, decerto, a libertação de uma das algemas que me mantém sob opressão constante. No entanto, ao mesmo tempo, não é liberdade de nada, posto que teimam em delimitar o que devo ou não fazer com o cabelo e corpo. Essa relação dialética me atormenta a cada olhada no espelho. Todos os dias pelas ruas.

Olho no espelho e… Espetacular! Outros momentos, a auto-estima se esgota e culpo todos esses pequenos fios pela aparência menos “feminina” que minha mente constrói.

Velada. Oprime-me. Pego-me resistindo, então. Emancipando-me. Fortalecendo.

assim, escrevo.

escrever

* desde 2010 tornando digitado aquilo que por muito tempo esteve escrito;

** foram 3 anos de tumblr e hoje fazem 2 de WordPress.

Escrevo desde que recordo da minha existência, desde que comecei a entender um pouco melhor o Mundo e me desentender cada vez mais. Sempre me fora terapia. Se, quando menor, escrevia algumas ficções sobre um Universo distante do meu. E, quando atingi minha adolescência optei por missivas para alguém imaginário. Hoje em dia, projeto-me inteiramente nos rascunhos mal-acabados que se perpetuam por esta página.

A inquietude, que sempre se alastrou pelo corpo, transborda de mim em forma de linhas não tão sofisticadas e arranjos obsoletos. O nó, que aperta a minha garganta, afrouxa-se quando escrevo. O ato da escrita quiçá seja remédio. Sana a angustia que me toma pela vida e acalma o meu outro eu. Este que se contorce tão firmemente por dentro da minha pele há tantos anos. Traz consigo a lucidez em meio aos anjos e demônios que me rodeiam. É o confessionário perfeito para alguém que não consegue se explicar olhando nos olhos, que gagueja quando precisa falar de si própria.

Porventura, seja a tentativa menos frustrante de ser alguém neste Mundo que todos esperam que sejamos ninguém – pois, no limite, viver é uma eterna encenação dentro de uma estalagem imutável (ou até mesmo, um jogo de xadrez!). De todo modo, é a minha maneira de consolidar que ainda vivo.

vozes

Um emaranhado de vozes se confundem em mim. Queixam-se por dentro. Não se resolvem. Conflituam-se numa valsa não tão harmoniosa. Todas elas têm vontade de sair ao mesmo tempo. Dentre tais, há aquelas que eu grito para todos ouvirem. Outras que, por si só, bradam em um uníssono silencioso e passivo – no olhar. Há, também, aquelas que vociferam em minha alma. Algumas gostariam de clamar para que o mundo todo escutasse, mas engasgam. Invencível trava na garganta. No limite, existe tudo que eu queria confessar, em sussurros, mas, atenho-me calada.