Category Archives: Filmes

recomendo: obvious child

Jenny-Slate

* um pouco deslocado do todo, mas existem coisas que merecem ser compartilhadas.

** acabei de assistir e estou animada, não posso deixar isso passar em branco

*** como raramente (aka nunca) escrevo sobre esse tipo de coisa, talvez o texto fique meio confuso… my bad, mas tá valendo. tenham paciência!

À primeira vista, pode parecer um filme bobinho. Obvious Child em letra garrafais brancas, o fundo rosa-choque e uma mulher no canto. Ainda, se olhar a página do Facebook, parece mais uma comédia romântica na qual a personagem principal fica grávida. Bem, foi isso que eu pensei na madrugada passada e acabei assistindo “The Grand Budapest Hotel”.

O filme retrata a vida da aspirante a comediante Donna Stern (Jenny Slate) – uma mulher de vinte e tantos anos. Pois bem, em linhas gerais, depois de one-night stand com Max (Jake Lacy), Donna engravida. Sua decisão é abortar. Em nenhum momento do filme o aborto é moralmente questionado. Em nenhum momento Donna recua. Mas, o mais excelente é que a opinião de Max não importa. Afinal, o corpo é de Donna, it’s her call.

Para além disso, de uma certa forma, é colocada a questão da legalização do aborto e sua necessidade principalmente ao que tange a saúde da mulher. Em uma das passagens do filme, a mãe de Donna relata que já havia abortado e que, como naquela época era ilegal, o procedimento fora feito em um apartamento em cima da mesa da cozinha. Ela e mais muitas outras mulheres. O que nos leva a duas questões: as condições precárias dos locais em que normalmente são feitos os abortos e também como tais não são casos tão isolados assim. Porém, Obvious Child reproduz uma visão um tanto clássica e estereotipada: jovem de 20 e tantos anos, solteira, que mal consegue se sustentar, engravida e resolve abortar.

No entanto, no Brasil, a realidade é outra: a maioria das mulheres que abortam estão na faixa dos 30-39 anos, já têm filhos, religião e são casadas. Além disso, não existe recorte de classe no que tange a decisão de fazê-lo: mulheres pobres e ricas abortam todos os dias. Todavia, é inegável que os riscos que uma mulher rica corre durante o procedimento na clínica clandestina que seu dinheiro pôde pagar são surpreendentemente menores quando comparados aos riscos da mulher pobre (normalmente, negra) nas clínicas de garagens, onde muitas vezes tudo que se precisa é uma agulha de crochê.

Posto isso, é necessário que façamos esse debate abertamente e com o conjunto da sociedade, pois quando discutimos a legalização do aborto, não estamos fazendo apologia, muito menos exaltando tal prática, estamos apontando o índice de mulheres que morrem por terem realizado abortos inseguros, bem como, levantando a discussão acerca da falta de educação sexual e políticas de contracepção no SUS, principalmente nas periferias. Quantas mulheres terão que falecer para que o Estado compreenda que criminalizar não é a saída? Outrossim, é igualmente um debate sobre a liberdade de escolha das mulheres e o direito sobre o seus próprios corpos!

Obvious Child é um filme muito pedagógico e delicado ao retratar um tema tão caro para todas nós, mulheres. Claro que existem várias ressalvas, como, por exemplo, o fato de que não existem personagens negrxs. Mas, ainda assim, fez-me pensar bastante na minha condição enquanto mulher – até porque nada mais é do que a caminhada de auto-descobrimento e de empoderamento de Donna.

carta para elisabet

“Dearest Elisabet,

Since I’m not allowed to see you, I’m writing to you. You don’t have to read my letter. You can ignore it. I cannot help seeking contact with you this way.

I’m haunted by a constant question… Have I hurt you in any way? Have I unknowingly hurt you? Is there some terrible misunderstanding between us? Do you really want me to go on?

I thought we were happy. We have never been so close. Do you remember saying “I’m beginning to understand what it means to be married”? You have taught me that we have to see each other ‘as two anxious children filled with good will and the best intentions, but ruled by powers that we can only partially control’. Do you remember saying all that? We went for a walk in the woods and you stopped and grabbed the belt of my coat…”

E, então, ela tira a carta escrita pelo seu marido das mãos de Alma e amassa o papel com força e angústia brutal.

Persona – Ingmar Bergman – 1966.