Category Archives: feat Devaneios políticos

ladainha

trevisan

* texto de um amigo que, por não ter onde publicá-lo, pediu-me um espaço aqui.

POR MATHEUS TREVISAN.

O dia é cinza e a noite é escura. No céu, não se avistam estrelas a cobrir a grande cidade. Aqui e acolá, milhões andam como se fossem um e incontáveis uns se movimentam céticos e resignados por suas rotinas vazias de sentido e significado. Nos ônibus, trens e metrôs, a hora do rush faz surgirem abraços involuntários entre estranhos desconhecidos, unidos pelo aperto das estruturas metálicas em movimento. A fome, o sono, o frio, o calor. O cotidiano se revela uma absoluta sucessão de sensações físicas. Ao lado, uma senhora dorme com a cabeça encostada na janela. Atrás, um homem come um alimento que não nutre, apenas engana. E enganados seguimos a cada dia para dormir, acordar e repetir essa sinfonia desajustada.

Cremos viver o auge da civilização e do progresso. Contudo, para que alguns poucos se recostem confortavelmente em couros, sedas e coquetéis à meia luz, toda uma legião vive tal qual viviam seus antepassados em tempos primitivos. Não há luz, apenas sensações e o corpo absolutamente à flor da pele. Diante da voz cochichada daqueles que amarram tecidos finos e pedras preciosas no pescoço, emitimos grunhidos que não se fazem ouvir. Não temos a nós mesmos, sequer temos nossos corpos, apenas os estímulos sensoriais que ainda teimam em existir. Pelo menos até a tecnologia dirimí-los através de alguma nova invenção. Fórmulas e comprimidos. Mecanismos descartáveis que adicionam mais um dia à lista de dias descartados nessa ciranda fúnebre em que todos caminham em direção à morte. E ela, a morte, rodeia tudo e todos. Nesse rodeio, não se sabe quem é o peão e quem é o boi bravo. Todos somos um pouco de cada um deles. Peão diante de uma vida que balança enlouquecida para nos derrubar. Touro bravo com os testículos estrangulados diante dos nossos próprios sonhos e vontades que teimam em tombar.

Tal qual o cavaleiro tem sua espada e o velho caminhante tem seu cajado, nós também temos os nossos objetos místicos para tornar a jornada levemente menos insuportável. Aparelhos telefônicos que nos custam algumas semanas ou meses de pele esfolada e pelos quais compartilhamos com nossos iguais as agruras dessa existência rumo ao abate e que, pela desgraça que é esse mundo cão, nos serão roubados ou furtados por aqueles que foram cuspidos da esteira. Alguns também carregam uma carteira de cilindros amigos que nunca reclamam. A sensação de ter uma opção nos empodera. O mundo está diante de nós: maço ou box? Vermelho ou light? Através do cigarro nos entorpecemos e cuspimos a fumaça na cidade esfumaçada e no futuro enevoado. Brincamos com a poesia sinistra que há entre o verbo tragar e o verbo trazer. Tragamos querendo trazer, mas não trazemos. Fumo esse cigarro para ver se trago a felicidade. Talvez por conta do filtro, vermelho ou branco, ela não chegue aos pulmões.

E assim seguimos, cada vez mais cansados e embrutecidos. Cada nova esperança é sucedida de um imaginário balde de água gelada ou de um soco na boca do estômago. Não se iluda, imbecil. Não existe sonho possível. Não existe amor. Nesse mundo podre, o egoísmo é a regra de ouro. Quem ama, sofre. Quem quer, não tem. Quem sonha, quebra a cara. Quem crê, peca. Quem corre, tropeça. Quem fala, cala. Quem tenta, erra. Ainda assim, apesar desses pesares que pesam em nosso lombo, seguimos em frente. Há um germe em nós. Um tumor da sobrevivência que os mais românticos chamam de esperança. Na verdade, essa tal esperança nos sabota e serve de chicote aos nossos tormentos. Vai, levanta, tenha a esperança de que isso vai acabar. Você vai vencer, você vai amar e ser amado. Tenha esperança, imbecil. Que se foda a esperança e quem é otimista. Nesse mundo de merda o otimismo é a mascara dos tolos. Esses tolos contam suas moedas, bebem bebidas caras e nos hipnotizam com sua retórica. Tolos? Mãos ao alto que a salvação não é nesse mundo, eles dizem. Outra vez, outra vez, levanta e segue em frente que a missão é nobre. Erre mais uma vez, se foda mais uma vez. Essa é a última, tenha esperança…e temos. O céu é cinza, a noite é escura, mas o dia insiste em vir e o sol, teimoso e arrogante, teima em brilhar.

nesta valsa falciforme

                                Não sei valsar ao som da música que toca.  Há um tempo reparei que perdi a sensibilidade de antes e hoje me encontro mais racional do que a terapeuta um dia disse que eu sou. Não consigo escrever sem que pareça mecânico, nem mais tornar um texto simples, opulento; a questão toda é que me tornei, além de tudo, direta. Um pouco mais instintiva também, porém, sem que eu me arrependa dos meus atos e comportamentos – continuo com a mesma intensidade. Neste ardor de mudanças, meu olhar sobre o mundo não se manteve intacto: consolidei muito do que eu já pensava e exclui o que não combinava com meu novo ser humano. Em suma, continuo achando essa sociedade um porre e não guardo mais angústias – nada fica o dito pelo não dito, não mais –, respectivamente.

                Queria entender o porquê de a donzela ceder aos desejos do Homem, se ela sabe que tudo isso é uma cilada. O encanto de valsar por ventura não é mais do que momento, fato efêmero que a julgar com ajuda dos meus botões, concluo que nada mais é do que enganação múltipla aos olhos dos superficialistas. Ah, os superficiais: queria ser ingênua a ponto e ver o mundo do mesmo modo que eles. No entanto, sei que as aparências enganam.

                A urgência do acúmulo, a vontade de ter, a amiúde retração de ser, o modo de ver, a questão do estar, a mesquinharia burguesa, a necessidade do ter e o caos da existência… Não há combate, preferem a passividade. É a dança do Homem, são seus passos conduzindo a donzela, esta que se deixa levar pelo som e conforto do que lhe parece ser nuvem em vez de chão. Ah, a donzela chamada Sociedade… Tão ingênua quanto meus pensamentos anti-aristotélicos. Todavia, carrega consigo sobrenome Realidade.

                A melodia que conduz tal dança deixa claro o caráter das condições que tal comunidade instituiu. No tocante ao todo, ela se restringe a uma pequena porcentagem da população, a outra fração é como se não existisse, uma vez que não é do grande grupo (atente para a ordem de termos) de consumidores. Apenas existem para corroborar com o sistema. Sistema de capitalistas hipócritas que eu não consigo entender.

                Não vejo motivos para que haja lucros exorbitantes desde pequenas até grandes empresas, quero dizer, motivo teria se o lucro fosse investido na melhoria de tal ou em progresso cientifico ou em eficazes contribuições para a população que não existe – aquela carente de recursos. Mas não: o lucro vai para as contas bancárias que se perderam dentro dos códigos binários de tantos zeros que ostentam. Isso quando o “lucro” é realmente existente, haja vista que a corrupção está em alta. É incompreensível por mim o valor que os Homens dão à instituição Capital. O mesmo se faz quando começo a pensar no por que da venda de comida, água, abrigo e roupas, quando esses deveriam ser distribuídos, posto que são artigos essenciais para a existência do ser. É essa desumanidade da humanidade que me assusta e me faz crer que corremos em direção à extinção – pensada – da espécie.

                Tento entender vários pontos dessa sociedade egoísta. Não consigo acreditar que ainda há tabu; que amor e sexo são enlaçados: creio que não necessariamente. Não entra na minha cabeça a discriminação, a marginalização, o preconceito, a violência sádica dos Quadrados. Na minha mente – talvez inocente em demasia –, essa sociedade educada pelo sistema, não faz sentido algum. Clamam por milhões de melhorias, mas não lutam por nenhuma delas.

                Em minha opinião, gostam é da comodidade e do conforto, da bolha – que pensam que é blindada – e onde mantém suas vidas perfeitas, assim, quando alguém ameaça uma luta, estão ameaçando sua rotina fajutamente ideal, que por mais infeliz que esta seja e por mais que em suas mentes não haja justiça, preferem a não subversão. Em cenário amplo, ninguém é cego, muito menos parvo, acontece que vive-se hoje numa sociedade de medos e ansiedade. Por isso que a donzela não para de dançar nunca: na mente dela, o controle está em suas mãos, mas não, nunca esteve, o controle é do sistema, que ninguém vê. E, portanto, este que sustenta tamanho pavor… Ah, o Homem que conduz a valsa.

grão de purpurina

                Fama. Dinheiro. Audiência. Publicidade. É tudo isso que os aclamados heróis contemporâneos almejaram um dia possuir, assim, não abdicam disso “nem por um decreto”. Os heróis de hoje em dia não passam de celebridades passageiras, lançados na mídia por atos, muitas vezes moralmente questionáveis, ou por tantos outros, que maquilados por um sensacionalismo barato, são vendidos “à preço de banana”.

                Século XXI. O futuro; como tantas vezes assim fora chamado. O mais intrigante é como considerar o futuro este, sendo que moralmente falando é retrógrado. Haja vista que “herói” é o nome dado aos gregos àqueles homens divinizados. Aqueles que se distinguem por seu valor, e por suas ações extraordinárias. Exemplificando: o semi-divino Hércules.  No entanto, atualmente, a figura do “herói” é banalizada que muitas vezes, esse não é muito mais que uma celebridade ou um órgão que para se estabelecer num padrão dentro da sociedade faz alguma caridade, ou um daqueles famosos efêmeros que precisaram de coragem para “chegar aonde chegaram”, porém que a travessia pouco importa desde que haja um final patriarcal.

                O primeiro herói é aquele de sobrenome “mártir”. Aquele que preferiu morrer a renunciar sua fé, sua crença. Os de hoje, bem, renunciariam até sua pátria – mesmo que estadunidense – para ascender nas manchetes das principais revistas. É um heroísmo às avessas.

                Ao passo que, nas novelas de cavalaria do trovadorismo subitamente acontecia um conflito que desestabilizava o herói, para que, assim, ele próprio estabelecesse a ordem e chegasse ao objetivo; hoje, esnoba-se a travessia, ou na maioria das vezes, encurta-se essa e disfarçadamente alguns fatos vão parar “debaixo do tapete”, para que contemplemos a mister desses gatunos (os que escondem verdades) uma imagem distorcida.

                A honra de Ghandi. O altruísmo da Madre Tereza de Calcutá. A persistência naquilo que acreditava de Mandela. Para que figuras que trazem consigo sóis e luas? Para que heróis que morreram em si para darem vida ao herói que neles subsistia e que, como recompensa, tiveram o sentimento de possuírem consciência tranqüila?

                Prefere-se, em suma, a fraca luminosidade dos astros de Pedro Bial – sim, aqueles que o apresentador insiste em saudar como “meus heróis”. Esses que espelham todo o mundo da futilidade. E, que, não obstante, lutam pelo prêmio financeiro e contratos pecuniários do mundo artístico. Na prática: heróis; em tese, insignificantes.

                Nada disso trata-se de hedonofobia. É apenas que “todos os meus heróis morreram de overdose” ética. Para eles, fazê-lo é hedonismo. Hoje heroísmo é prazer físico, não mental. Heróis contemporâneos são aqueles que evitam a dor, mesmo que nela haja prazer.

enquanto tétrico

                Acordamos. Um novo dia, uma nova expectativa, um desejo de fazermos deste um melhor que o anterior. Nem sempre sorrimos, na maioria das vezes batemos em algo no caminho para o banheiro ou enquanto nos arrumamos. Isso nos consome; estressados ficamos por pouca coisa. Praticamente um ciclo diário, uma rotina. Contudo, sabemos que até o fim do dia não nos faltará o essencial para nossa biologia humana e que as chances da morte bater a nossa porta não é a das maiores. Somos a minoria.

                Enquanto nós acordamos, a maioria das pessoas nem, ao menos, conseguiu pregar os olhos. A maioria das pessoas passa fome, a maioria das pessoas passa frio. A maioria vive precariamente. A maioria está abandonada. Raramente pensamos nisso, porquê?

                Enquanto nós acordamos, pessoas estão lutando entre a vida e morte. Pessoas morrem. Algumas delas nem sabem que morrerão no próximo segundo. Algumas agonizam de dor até o último momento. E tudo isso enquanto você toma seu café puro e amargo todas as manhãs.

                Você é a exceção, todas as outras são a regra. Conte quantos bairros de classe alta existe e compare. Conte quantos estados são ricos dentro do seu País. Conte quantas praças existe e depois quantas delas não servem de abrigo. Ou até quantas pessoas sobrevivem debaixo da ponte, em torno do viaduto. Quantas vezes não te pararam no semáforo pedindo esmola, ou quantos quarteirões de uma longa avenida você andou e não viu ninguém jogado. Tão evidente. Tão conscientemente bloqueado.

                Alguns tentam, no entanto, mudar o Mundo. Alguns fingem que mudam. De pouco em pouco, todos sentem que deram o melhor de si para fazer toda essa hierarquia sumir e, de certa forma, serem considerados cidadãos melhores. Tentam brincar de ser Deus. Porém, na bem da verdade, ninguém fez e ninguém faz nada.

                O Rico não quer a ascensão do Pobre. Uma vez que se isso ocorrer, a substantivação do adjetivo deixará de valer… É tudo uma questão de termos, em cenário amplo.

olhar

Como você se sente quando, enquanto anda pelas ruas do Centro, vê pobres desabrigados? Como você se sente ao reparar que seus maiores problemas são ínfimos diante do resto do Mundo? E, ao chorar e espernear e alucinar, você percebe que ninguém dá a mínima para todo o seu narcisismo e egocentrismo? Então, ao realizar tamanha vastidão que se torna a vida e o globo, percebemos que somos pontos lamentando o dia de hoje e rezando – mesmo que sem fé – pelo melhor para o amanhã. Paramos. Limitamos a nós mesmos. A culpa logo toma força e começa um serviço penoso sobre nossos ombros e coluna já corcunda. Assim, nos arrastamos até a linha de chegada que nunca chega, é eterno. Ao reparar que tudo vai ficar em tal estado, enlouquecemos. Enlouquecemos e nos conformamos. Nada vai voltar, e o peso pressionando nossos ombros e cabeça permanecerá. Nenhum Deus pode tirá-los dali, ninguém pode assegurar que as coisas ficarão bem e serão esquecidas. É algo com o que temos que viver e nos adaptar. Tal que a vida prossegue, com seus altos e baixos sem sincronia. Com sua ampulheta sempre ali, esperando que nós desistamos, para que então, toda a areia termine de cair.