Monthly Archives: May 2016

de algum dia

Venho acordando meio Clarice ultimamente. Em alguma espécie de transe existencial em que, se pudesse, passaria o dia escrevendo meus imediatamentes cotidianos. Do excesso de lucidez que meus olhos têm refletido. Esse risco que a gente corre quando deixamos tudo ao redor e nos colocamos no vazio. Sinto-me vazia o suficiente para ter a certeza de que a falta de sentires me deixa mais forte. Feito uma muralha – daquelas construídas com as pedras mais resistentes. Dura. Fria. Enrijecida. O pragmatismo da escrita denuncia um pouco meu estado. As palavras cruas e nuas. Reais. Ainda que tudo gire em torne das fantasias que tomam meu corpo. A mente. O coração que dilacera. Lentamente.

Advertisements

da alfineteira

Era Sexta-feira e nos encontramos. Oi, você está bonita. Oi. Vamos? Terminei o café. Podemos ir. Fomos. Paguei a conta, andamos até o carro para uma “viagem” de 40 minutos. Antes de entrar no carro, eu já sentia que não éramos nós há meses. Sem beijo no rosto, sem abraço, sem mensagem. Durante o caminho, conversávamos sobre qualquer coisa… Daquelas conversas que se tem com qualquer pessoa também. Pelo resto da noite e madrugada a dentro, conforme o teor alcoólico me dominava, abraçamo-nos. Pareceu protocolar. Eu estava com saudade. Mas sentia como se a recíproca não fosse verdadeira, mesmo que as palavras tenham me dito o contrário. Eu continuo e persisto em pequenos movimentos para que voltemos a ser nós. Deve ser a necessidade de insatisfação. Nisso tudo, a culpa vez ou outra me fagocita: provavelmente, eu não fui a melhor das amigas… Eu não correspondi certo às demandas da amizade. Por isso, talvez, você tenha rompido. Eu não sou boa o suficiente ou interessante ou amigável. Ou a nova vida cheia de prioridades faz seus truques para que tudo, todos e qualquer coisa caiba na agenda desde que não me inclua.

Cada dia que passa, mais pessoas vão embora. Algumas me dizem o até logo, outra apenas seguem sem olhar para trás. É um canto triste, eu me contorço por dentro – das alfinetadas invisíveis que invadem a pele. O âmago.

do (possível) crepúsculo

_ das raras e boas lembranças que o Facebook tem me proporcionado.

_desculpe-me qualquer incoerência, mas como ser coerente quando se expressa movimentos incompletos da alma em um Mundo de concretos?

Abri o Facebook. Você tem recordações. Cliquei na notificação.

Deparei-me com uma fotografia minha de dois anos atrás tirada pelo El País na Praça do Ciclista. Eu estava na concentração de um dos atos contra as injustiças da Copa. Não conseguirei ter precisão, mas examinei a foto minuciosamente por bons e longos minutos. Alguma coisa se remexeu dentro de mim. Talvez, um misto de saudade e angústia que fez com que meu coração acelerasse e, logo, milhões de pensamentos aterrissaram na mente.

De lá para cá, eu mudei… Mais do que eu gostaria de admitir, a minha relação com Mundo também mudou. Esta que fora sempre oscilante, conseguiu alcançar seu auge em euforias e sua decadência em lamentos.

Posso dizer que, ao observá-la, um sorrateiro orgulho me preencheu: o passado não me condena, mas dá esperanças de que o futuro ainda me pertence. Eu, mulher, estava em um protesto (não era o primeiro e, muito menos, o último). Ocupando um espaço público. Sendo um ser politicamente ativo. Remeteu ao tempo que eu finalmente me dei conta de que meu cabelo não precisava ser comprido para que, ainda assim, eu fosse mulher e feminina. Eu vestia uma blusa branca e não estava sendo escrava dos aros do sutiã. Ainda, com segurança, deixei que me fotografassem.

No entanto, diante do constante movimento de romper-fixar que mantenho com o Mundo, a imagem do retrato desvaneceu. Desde que os meus ninguéns acordaram e emergiram do mais profundo de mim, a guerra interior se sobressai em detrimento do cotidiano, dos desejos, dos sonhos. Eu costumo perder batalhas. Muitas vezes porque a disputa é desleal. O patriarcado está constantemente tencionando para que culpas e inseguranças as ganhem. Nesse movimento truncado e esgotante, o corpo acaba que não aguenta: existem vozes atormentando a autoestima; outras reafirmam que o Mundo não vale a pena; algumas ainda reforçam todos os perigos de ser mulher e andar nas ruas; os sussurros constantes de que jamais serei suficiente. O medo me asfixia. Chega a ser claustrofóbico viver dentro de si mesma quando as estruturas da sociedade potencializam as fragilidades da própria existência.

Eu sinto saudade de pisar na rua. Gritar palavras de ordem. Sentir que sou capaz de conversar satisfatoriamente sobre política, de novo. Sinto saudade dos breves lapsos em que eu sentia algo próximo ao pertencer.

Estou há algumas semanas dizendo que a apatia tem me enrijecido, deixando-me fria. Essa saudade, em contrapartida, cálida. Como se o verão tivesse chegado dentro de mim – a guerra persiste, porém, com algumas esquinas rutilantes… Eu acho que, hoje, é deste ponto que eu parto. Penumbras. À luta.

Dos lampejos que reacendem a coragem de enfrentar a ordem – de fora para dentro, vice-versa. A vontade de nos ultrapassar me toma. Superar o que fui, o que sou. Seguiremos tentando romper as amarras coletivamente. Cada dia mais fortes! O empoderamento continuará na ordem do dia para toda a Vida. Podemos!

das escolhas

eu não fui inclusa. entendi que o Mundo que me rodeia vem cortando nossos laços há tempos. às vezes, parece que ninguém ficou. questiono se alguma vez alguém esteve. realizei que não tenho mais espaço nas vidas, inclusive na minha. resolvi que preciso de mais espaço. chamar de meu. eu. singular.

gostaria de ter rompido com o Mundo antes que ele o fizesse. assim, talvez, doesse menos. fosse tristeza controlada. agora, pairo em tentativas vermelhas de controlar o incontrolável em um contante movimento de endurecer. finalmente, alguém tomou esta decisão por mim: devo ser muralha. romper nunca pareceu tão difícil.

de hoje

eu não sei dizer ao certo o que eu senti. só tenho a completa certeza de que era triste e angustiante. um pouco sufocante também. às vezes chega a doer um pouco. na verdade, sinto o coração parar e voltar. ou mesmo queimar. as mulheres que me habitam também não me dão um tempo, cada uma me diz uma coisa… elas são tão diferentes que viro claustrofóbica dentro de mim mesma. uma avalanche de sentimentos contraditórios me ataca. dos meus devaneios sobre tratar um amigo como um mero colega.

a vida é feita de escolhas.

ninguém nunca disse que elas seriam fáceis.

ninguém nunca disse que elas seriam suas.

cárcere

essa coisa de nos sentirmos constantemente aprisionadas a nós mesmas, nas nossas próprias vidas e corpo, ainda vai nos matar. asfixiadas. sufocadas. juntas. 

Cheguei ao ponto no qual já não aguento mais viver em mim. Assemelha-se bastante com alguém irrompendo contra a minha pele. Vazando-me violentamente. Só que em tentativas dilacerantes e falhas. Não vazo. Quer sair para fora do meu corpo. Implodindo-me em um movimento constante de exorcismo espontâneo. Incontrolável. Não sei discernir se sou eu ou algum dos meus ninguéns.

Nos instantes seguintes, instala-se um peso de massa infinita do lado esquerdo do peito. A angustia se alastra pela corrente sanguínea. Controla os impulsos nervosos. Sobe para a garganta em bolhas. Aprisiona a voz. Prende a respiração. Permanentemente em frações de segundos. Eu me digladio. Fecho-me. Encasulo-me diante desta cólica de nadas. Ou dos meus tudos. A cólica subjetiva que contrai o corpo. Imediatamente, estatelada no chão. Retorcida. Feita no Cerrado. No cativeiro do meu próprio corpo.