Monthly Archives: June 2015

sonâmbula #1

maxresdefault

sentia nada. todos os dias, o dia inteiro, NADA.

a vida fora como um sonho (ou pesadelo!), tudo ao redor carecia de significado. quando não se lembra mais como é sentir, viver se torna um constante estado de sonambulismo: acordada o bastante para interagir, demasiadamente torporizada para acreditar que é real. inexpressiva. com o tempo, aceitou que não havia escapatória para a farsa que é existir. desassossegada, parou de se preocupar.

e, sonhava sozinha.

duo

O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem

Guimarães Rosa

Subitamente, despenca. Instável. Em uma fração de segundos, um constante estado de alívio passa a ser angustiante ansiedade. Dilacera. Eu já não sei mais o que faço aqui. Rasga. A sensação de pertencimento se esvaia como se arrancada de mim. Perde-se. As paredes se fecham ao meu redor e engolem-me pouco a pouco. Profundezas. O espelho exprime distorcidamente uma ilusão de mim mesma ainda que o reflexo pareça eu-completa. Enrijece. O coração palpita e me diz que, talvez, eu não aguente mais. E, assim, amanhã é Segunda-feira.

tempo

Big Ben Clock Tower From A Phone Booth At Night HD Desktop Background

se pudesse selecionar dois objetos cruciais para o cotidiano diria que a Agenda e o Relógio. Pensando melhor, adicionaria um terceiro item: o caderninho dos devaneios e o lápis, que formam um corpo só. 

As vinte e quatro horas do dia resumem-se às tarefas ordenadamente anotadas na agenda. Estudos. Trabalhos. Compromissos. É dia montado minunciosamente. Os ponteiros se arrastam pelos segundos adentro. É passo dado conhecendo o campo de batalha para que imprevistos não ocorram. Quando a guerra se perpetua no mais profundo do âmago, a mente só clama para que consigamos dar conta do que nos é extrínseco.

Acorda. Café. Cigarro. Anglo. Carro. Trabalho. Estresse surge repentinamente. Barra Funda. Vila Madalena. Bar. Senta em uma mesa quadrada. Um drink. O som dos carros acelerando se mistura com as buzinas incessantes. Feriado. Os risos e as conversas em volta se confundem. O estresse aumenta. Pode ser fome. O ruido do cigarro queimando se faz perceptível. Come. Bebe. “Vou fazer hora extra hoje, desculpa”… Desconforto. De novo. Dilacera. A mente já cansada de se digladiar o dia todo dispende ainda mais energia para assimilar. O corpo exausto levanta-se e a cabeça lateja. Os olhos fecham e forjam um respiração mais demorada.

Perco-me. Qualquer ruptura desestabiliza. É como se a agenda já não mais fizesse sentido em existir, bem com o relógio e a companhia. É como se, no final das contas, nada mais valesse a pena. Descontrole.

ladainha

trevisan

* texto de um amigo que, por não ter onde publicá-lo, pediu-me um espaço aqui.

POR MATHEUS TREVISAN.

O dia é cinza e a noite é escura. No céu, não se avistam estrelas a cobrir a grande cidade. Aqui e acolá, milhões andam como se fossem um e incontáveis uns se movimentam céticos e resignados por suas rotinas vazias de sentido e significado. Nos ônibus, trens e metrôs, a hora do rush faz surgirem abraços involuntários entre estranhos desconhecidos, unidos pelo aperto das estruturas metálicas em movimento. A fome, o sono, o frio, o calor. O cotidiano se revela uma absoluta sucessão de sensações físicas. Ao lado, uma senhora dorme com a cabeça encostada na janela. Atrás, um homem come um alimento que não nutre, apenas engana. E enganados seguimos a cada dia para dormir, acordar e repetir essa sinfonia desajustada.

Cremos viver o auge da civilização e do progresso. Contudo, para que alguns poucos se recostem confortavelmente em couros, sedas e coquetéis à meia luz, toda uma legião vive tal qual viviam seus antepassados em tempos primitivos. Não há luz, apenas sensações e o corpo absolutamente à flor da pele. Diante da voz cochichada daqueles que amarram tecidos finos e pedras preciosas no pescoço, emitimos grunhidos que não se fazem ouvir. Não temos a nós mesmos, sequer temos nossos corpos, apenas os estímulos sensoriais que ainda teimam em existir. Pelo menos até a tecnologia dirimí-los através de alguma nova invenção. Fórmulas e comprimidos. Mecanismos descartáveis que adicionam mais um dia à lista de dias descartados nessa ciranda fúnebre em que todos caminham em direção à morte. E ela, a morte, rodeia tudo e todos. Nesse rodeio, não se sabe quem é o peão e quem é o boi bravo. Todos somos um pouco de cada um deles. Peão diante de uma vida que balança enlouquecida para nos derrubar. Touro bravo com os testículos estrangulados diante dos nossos próprios sonhos e vontades que teimam em tombar.

Tal qual o cavaleiro tem sua espada e o velho caminhante tem seu cajado, nós também temos os nossos objetos místicos para tornar a jornada levemente menos insuportável. Aparelhos telefônicos que nos custam algumas semanas ou meses de pele esfolada e pelos quais compartilhamos com nossos iguais as agruras dessa existência rumo ao abate e que, pela desgraça que é esse mundo cão, nos serão roubados ou furtados por aqueles que foram cuspidos da esteira. Alguns também carregam uma carteira de cilindros amigos que nunca reclamam. A sensação de ter uma opção nos empodera. O mundo está diante de nós: maço ou box? Vermelho ou light? Através do cigarro nos entorpecemos e cuspimos a fumaça na cidade esfumaçada e no futuro enevoado. Brincamos com a poesia sinistra que há entre o verbo tragar e o verbo trazer. Tragamos querendo trazer, mas não trazemos. Fumo esse cigarro para ver se trago a felicidade. Talvez por conta do filtro, vermelho ou branco, ela não chegue aos pulmões.

E assim seguimos, cada vez mais cansados e embrutecidos. Cada nova esperança é sucedida de um imaginário balde de água gelada ou de um soco na boca do estômago. Não se iluda, imbecil. Não existe sonho possível. Não existe amor. Nesse mundo podre, o egoísmo é a regra de ouro. Quem ama, sofre. Quem quer, não tem. Quem sonha, quebra a cara. Quem crê, peca. Quem corre, tropeça. Quem fala, cala. Quem tenta, erra. Ainda assim, apesar desses pesares que pesam em nosso lombo, seguimos em frente. Há um germe em nós. Um tumor da sobrevivência que os mais românticos chamam de esperança. Na verdade, essa tal esperança nos sabota e serve de chicote aos nossos tormentos. Vai, levanta, tenha a esperança de que isso vai acabar. Você vai vencer, você vai amar e ser amado. Tenha esperança, imbecil. Que se foda a esperança e quem é otimista. Nesse mundo de merda o otimismo é a mascara dos tolos. Esses tolos contam suas moedas, bebem bebidas caras e nos hipnotizam com sua retórica. Tolos? Mãos ao alto que a salvação não é nesse mundo, eles dizem. Outra vez, outra vez, levanta e segue em frente que a missão é nobre. Erre mais uma vez, se foda mais uma vez. Essa é a última, tenha esperança…e temos. O céu é cinza, a noite é escura, mas o dia insiste em vir e o sol, teimoso e arrogante, teima em brilhar.