Monthly Archives: April 2015

desatinos #4

A passividade tem assolado os dias. Os ciclos de reclusões têm me colocado inerte frente aos anseios da mente. A companhia da Solidão já não atordoa mais: acostumei a ela da mesma maneira que nos acostumamos com o estranho que passa a conviver conosco; tornou-se habito tê-la por perto sem sentir o incômodo da alma.

Se algum dia vi no Mundo matizes colorida-cintilantes e percebi fragrâncias indescritíveis, daquelas que nos fingem sorrisos; hoje, opaco é a única nuance que constato no espectro do Mundo. Este que passa pelos meus olhos em câmera lenta e sem harmonia… Em uma constância disparada de eventos.

“Uma cópia, de uma cópia, de uma cópia”. Cenas. Pessoas. Ato.

A carência de sentido para as coisas da Vida tem me travado: coloco-me distante do todo e, consequentemente, o todo me isola. Acenou com impasses; ainda que tudo isso seja maquinado, não sei até que ponto a mente avança neste ritmo de apatia de espírito, no qual o corpo se indispõe. Adoece.

Em contrapartida, em outros dias, a relação com o Mundo se intensifica – as andanças por ele tornam-se diárias. Contudo, pelo fato de nosso laço ser tão abstrato e frágil, sinto que é como se eu apenas estivesse, padecesse; posto que, no fundo, não existo. Contradições.

Meus devaneios já não se estabelecem pela falta de nexo que um dia tive comigo mesma, mas, sim, pela falta de nexo que mantenho com o Mundo. Nascem da persistência. Amadurecem no seio das angústias.

O cansaço reconforta. A lucidez não se anula. No entanto, a solidão se consolida.

lago sereno

Persona2

Estou cansada. O corpo já denuncia há dias meu estado; tem pregado-me peças e me deixado de cama. Enferma com dores na carne. O açoite, que por muito se manteve na alma, tem atacado frequentemente cada milimetro da camada reticular. Já não existe mais limite. O subjetivo já me é concreto, vice-versa.

O cansaço constante me angustia e inquieta. Baque. Insistem em atirar pedras no lago sereno de águas desassossegadas. Pinga, pinga, pinga…  Explode. A falta de rumo me invade. Dilacera. Ainda, os ombros doem cada dia mais. O pescoço já não aguenta a cabeça. Os olhos mantêm-se alerta. Não existe sono que cure. Nada me anima. Minhas distrações se distanciam do front. É apatia de espírito ou súbita consciência de que, talvez, nada acalme a alma de quem vive, da mesma forma, nada valha a pena ser vivido. Afinal, o que é a vida?

últimos dias

co1

* eu de dia sou nulo, e de noite sou eu_livro do desassossego_fernando pessoa.

Nos últimos dias, afastei-me da escrita cotidiana em meu caderno laranja e, por conseguinte, neste domínio. Talvez, as palavras tenham me fugido, da mesma forma que os sentimentos escorregam como sabonete pelas minhas mãos. Vazio.

Guardei-me por sete dias no esconderijo. A angustia que o Mundo me causa já não cabe mais no peito. Às vezes, a sensação que se instala é a de que diminuo a cada segundo que passa. Como se eu estivesse dentro de um trem que se afasta da Metrópole – esta que aos olhos de quem vê se diminui pelo horizonte, mas no fundo é a névoa da solidão que nos caleja, como se quem diminuísse fossemos nós.

A convivência com as gentes me anula enquanto individuo. Prende-me com correntes. A perna faz movimentos frenéticos para se soltar. Não obtém sucesso. Termino exausta. Assim, a existência plena apenas se afirma nas noites, quando me resta somente um bom livro, o café, o cigarro e o céu escuro.

A janela aberta me abarca. Consolida a ligação que tenho com este Mundo. Porém, a imensidão do escuro da noite me aperta e cimenta que, porventura, a existência por si só não possua significado. Riscos.

desatinos #3

* Antes, leia: Desatinos #1 e Desatinos #2 e Convivência

** A prática dos últimos 10 meses. Aos amigos, peço paciência.

*** Recomendo que leiam: 20 Sentences People with Depression Hate Hearing The Most

Muito da minha recusa em conversar com as pessoas sobre os meus estados, para além da questão de que me expresso melhor quando escrevo, parte do fato de que, salvo pouquíssimas exceções, elas sempre falam mais do que ouvem. Não contentes em dar opiniões sobre o que desconhecem, caem no limbo de frases motivacionais que mais servem para cavar ainda mais meu chão do que me impulsionar a avançar. Os meus eus se sentem ainda mais culpados. As vozes que me perturbam se confrontam agitadas na mente. Ainda que eu ache legítima essa postura das gentes, tendo em vista que, talvez, sejam mecanismos para evitarem pensar nas próprias vidas ou porque, realmente, a vida alheia só interessa se podemos opinar sobre elas; quero ressaltar que vocês estão fazendo isso errado, nada disso ajuda.

Você não me diz para sair dessa e seguir em frente. Que a vida é dura, mas que ela continua. Muito menos que existem pessoas em condições piores do que a minha e que eu deveria agradecer pela vida que tenho, porque afinal todos têm problemas. Que eu deveria me animar, sair de casa, fazer compras e divertir-me, ou ao menos tentar… Ah, você também não me venha dizer que eu deveria me esforçar mais para melhorar. O mesmo vale, para todas as vezes que você quiser me convencer de que eu tenho que parar de sentir pena de mim mesma. Ou que eu estou mais introspectiva e sensível, como se tais fossem defeitos. Também, não me diga que sou forte e que tudo ficará bem. E, que quando meu mundo cair, eu posso te ligar.

Quando você me diz todas essas frases com facilidade, como se me contasse histórias triviais, eu sinto um misto de inveja e culpa e incapacidade juntamente com aquele desespero infindável que faz se projetar na minha cabeça uma voz que diz que eu sou NADA, que a vida significa NADA, então, o Mundo também sendo NADA, não é um Mundo que valha a pena permanecer.

Todas as vezes que você me diz para sair de casa e eu digo que não tenho vontade e, ainda assim, você insiste: eu me sinto a pior das pessoas existentes no planeta. Não é vitimismo, é apenas a sensação de que sair de casa não me agregará nada. Já disse em alguns textos passados o quão exaustivo para mim é sair com muita gente. A encenação me gasta. E, fingir ser alguém que não sou, exige de mim mais força do que eu tenho.É uma cobra se enlaçando no meu pescoço, como se tal fosse sua presa… O distanciamento que me coloquei das gentes é auto-cuidado. Não mais farei de mim o que querem, mas apenas o que me quero.

Se você soubesse o mal-estar que me coloca, jamais diria essas frases. Pois, não é como se eu quisesse estar assim. Se eu pudesse, teria uma rotina emocional equilibrada que me deixa viver o mundo. Contudo, não sou assim. Se eu pudesse, minha cama e as paredes do meu quarto não seriam as pessoas que mais me vêem. Eu queria poder ter forças para todas as vezes que eu quero sair de casa. Não é como se eu tivesse gostado de, ontem mesmo, ter ido ao jardim para fumar meu cigarro e não ter conseguido, porque o mundo me oprime e eu sinto medo de vivê-lo. O meu quarto parece-me que é o lugar mais seguro de toda a face da Terra.

A solidão, se por um lado parece o monstro mais abominável para alguns; para mim, ela é a melhor das companheiras. Todavia, você ainda me vira e diz que as pessoas me querem bem, que elas estão tentando me ajudar, que elas… Eu apenas respiro fundo. Mesmo achando dúbia a sua sentença, eu não duvido que, até certo ponto, exista gente preocupada. No entanto, como esperar empatia de gente que não sabe o que se passa comigo? Como esperar empatia de gente que nem ao menos pergunta se estou bem? Aprendi neste tempo que me mantive longe – para que assim eu consiga juntar todas as partes de mim que foram ficando ali e acolá -, que não quero mais relações particionadas, posto que eu já me quero em minha totalidade. Mais a vale a solidão sabendo-se que é um sozinho do que a eterna ilusão de que estamos rodeados de gente.

Eu não sinto falta da vida que levava. A minha clareza de realidade tem sido um risco, concordo. Porém, o Mundo continua girando.