Monthly Archives: March 2015

convivência

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* para xs, talvez, amigxs;

** a solidão desola-me; a companhia oprime-me. (fernando pessoa)

A superficialidade já não cabe mais em mim; na verdade, nunca me exerceu interesse. É nítida a barreira que tenho colocado entre a minha própria figura e tudo que existe para além do meu corpo. Tal ato deu-me mais espaço para me conciliar com todas essas pessoas que, internamente, existem em mim.

Eu conheço os meus estados e as mulheres que me habitam. Encontro-me em período de assimilação destas estranhas, uma vez que já as aceitei para a convivência cotidiana. Neste cenário, a solidão e o silêncio têm sido amigos fiéis: ajudam-me a dar vazão às minhas vozes. De forma que, lentamente, a ideia de reclusão tem se afastado, mesmo que, em alguns momentos, exista a disposição de aproximá-la. Contudo, entendo que este meu ostracismo é sintoma da lucidez em excesso que me enclausura, afinal, como diz Clarice Lispector: “essa clareza de realidade é um risco”.

Assim, não posso deixar que continuem a me sugar, extirpando aquilo que de mais lúcido me reside. O Mundo por si só já me sufoca e inquieta em demasia. Não necessito que exista mais um abalo que colida com os terremotos inerentes às profundezas do meu desassossego de espírito.

A verdade é que, por muito tempo, mantive-me fragmentada. A deterioração das demandas da mente fez com que me perdesse de mim mesma. Logo, o ensaio de juntar todas as minhas partes é alívio. Cheguei a um ponto de me querer por INTEIRA. Da cabeça aos pés. Até o último fio de cabelo. Eu me desejo. Quero todas essas estranhas que se atracam no meu âmago. Quero-me forte ou fraca.

Nesse sentido, a sequencia lógica das questões, coloca-me, portanto, que o próximo passo aponta tanto para as relações que arrisco com o que me é externo, quanto para como os extrínsecos reagem perante a mim. Espero que permaneçam apenas aqueles que me querem da mesma maneira que eu: em minha totalidade.

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desatinos #2

* sobre o último período e os apontamentos futuros;

** ao som de Elis Regina, Mundo da Paz.

O que há de mais frágil dentro de mim – e que perpassa todas as estranhas que habitam meu corpo – se resume a uma só mistura: lucidez com sofrimento. Contudo, os níveis de cada elemento oscilam sem aviso prévio, colocando-me em um estado de negligência com o todo que chega a ser egoísta. De todas as pessoas que me vivem, os meus pólos se contrastam no pior da essência do “8 ou 80”. Se por um lado, existe um eu que se fascina com a sociedade e que se contagia pela luta cotidiana por um novo futuro; o meu outro extremo, é o deserto, é o que de mais abstrato a mente pode compor sobre este Mundo, o devaneio cotidiano e disparado das contradições dele, a necessidade de solidão, a auto-suficiência sufocante, o não saber do porquê da vida.

Assim, a necessidade desta escrita venha pela confusão que se fixou na minha mente ao longo dos últimos sete dias. Nestes, não fui minha. Fui de tudo que é exterior a mim na maior parte das horas. Isto, no entanto, não significa que não fui eu. Ao que parece, os meus vários eus estão, ao seus modos, se encaixando no que a vida nos coloca. Lentamente, porém existem tentativas. Também não quis dizer que me alienei perante as tarefas do dia-a-dia. O equilíbrio entre as necessidades do corpo e as vontades da mente ainda é prioridade zero.

O vazio que me perseguiu durante esta semana é diferente do meu vazio corriqueiro tão expresso nos relatos passados. O vazio que me assola, no exato momento, não é o anuncio de uma recaída. Porventura, seja a assimilação do meu corpo a alguma negociata existente entre as minhas diversas mulheres. Quem sabe o que serei amanhã. Ou, ainda, pela noite que se aproxima.

Se por muitos dias a minha companheira Lucidez me entorpece e o Sofrimento demasiado me engole. É dado que, em outros, se houver harmonia na dupla e auto-cuidado: o futuro me pertence.

guia dos desamores {parte 2 – a linha tênue entre carência e opressão}

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* Tenho minhas ressalvas quanto a questão do amor, tendo em vista a sociedade em que vivemos;

** No fundo, não sou tão insensível assim (ou sou, né? foda-se);

*** da série Guia dos Desamores

Na madrugada passada, assisti a um desses filmes bem ruins, bem românticos e com atores que parecem que foram feitos de cera. A história é o mais do mesmo: amor a primeira vista. Basicamente, uma mulher conhece um homem, ela passa três dias presa na casa dele (porque choveu e estava tudo alagado) junto com o filho do cara e a governanta. No final do terceiro dia, a personagem principal flagra o homem e a suposta vilã se beijando. Daí ela foge. E, ele aparece com um cavalo branco na frente do lugar que ela trabalha para demonstrar todo o AMOR que tem pela mulher em questão. Uma babaquice sem tamanho, diga-se de passagem.PAUSA REFLEXIVA Não sou perita em romance, mas uma coisa é certa: esses filmes são construídos sob o signo do machismo e uma pitada de distorção da realidade. No fundo, corroboram para a perpetuação de relações cada vez mais abusivas que, por serem práticas tratadas como naturais, camuflam-se no simbolo do amor.

Enquanto assistia, lembrei de uma amiga minha, por isso, senti vontade de escrever. Pois bem, pontuarei algumas questões.

Primeiramente, o básico. Queria dizer que as chances de você se apaixonar por alguém em meros TRÊS DIAS são iguais as chances de eu conseguir me transformar em uma coruja em 1 segundo. A não ser que você seja algum tipo de sociopata. E não me venha com hipervalorizar o amor como se fosse uma entidade que transcende ao espaçoxtempo dos meros mortais, porque isso, minhas caras e meus caros, NÃO EXISTE; bem como essas histórias de hollywood.

Em segundo lugar, também não vale fazer projeções de alguém e se apaixonar por essa PROJEÇÃO. Pois, no limite, você está se apegando a um fantasma, uma elaboração da sua mente, uma ilusão da realidade. Mas esse argumento é o de menos, uma vez que é você que vai quebrar a cara no final (não eu e muito menos a sua “””parceira”””). O grande problema que orbita esta questão é que, muitas vezes, os atributos escolhidos para a construção desta imagem têm seio no estereótipo machista da tal “mulher para casar”. Não obstante que nos filmes, a tal “mocinha” (personagem principal da Malhação!) é toda doce, simpática, não chama muito a atenção porque “se guarda” e essas coisas; e, a vilã fica de salto alto 24h por dia, grita, tem aquela voz petulante e passa mais maquiagem do que devia. E essas duas convivem em um ambiente que cheira a competição. O que eu quero dizer é que esse tipo de construção NÃO É NATURAL, nem de longe, muito menos de perto. Acho que já deu pra entender meu ponto!

É sempre importante demarcar o que é trivial: NÃO É NÃO! E, não importa se a mulher disse isso rindo, olhando para parede ou para você, séria, bêbada, sóbria… Esteja a mulher na condição que for. Se você ouvir um NÃO, isso in-cri-vel-men-te significa NÃO. O mesmo vale para a seguinte situação: se você pede alguém em namoro e a pessoa recusa, mas continua saindo com você, isso também NÃO significa que vocês estão QUASE namorando. Já parou para pensar que você pode ser apenas uma boa companhia, mas que as imposições e circunstâncias que você coloca acabam repelindo a pessoa da ideia de te dar uma chance?

Poderia escrever mais, porém o tempo não está me deixando. Em suma, é sempre bom refletirmos as relações que temos por esse Mundo afora. Pois, a linha que distingue a carência da opressão é bastante tênue.

dos meus estados

Acreditei piamente que as Águas de Março levariam embora essa parte de mim que me torna instável. Lego engano. Elas potencializaram ainda mais as interferências dos meus eus: cheguei a um ponto de nem me importar, haja vista que o medo que tenho de mim, inflou-se. A imagem no espelho. A sombra no encalço. Tive a crença de que as tais águas trariam todos os desejos e sonhos que me faltam. Pensei com todas as forças que, neste estágio, a mistura do sofrimento e da lucidez não mais apontariam as regras do dia. Cansa mais o dia, do que pensar nos dias em conjunto. A linha que cerceia e distingue toda essa gente que existe em mim, esfumaça-se em uma inconstância periódica. E, o encontro com as gentes que transcendem ao meu corpo ainda é exaustão. O compromisso com a mente parece ineficiente. Tanto que é descompromisso meu ainda achar que a reclusão é o melhor caminho, mesmo que o esforço cotidiano de não me isolar tenha estado na ordem do dia. No mais, as contradições de meu estado se evidenciam. Conforme o tempo passa, colocam-me, portanto, o impasse: para que dar sentido a essa estalagem imutável se tal não tem sentido algum? A insistência nisto, quando não se projeta nada que vá além do agora, seja erro crasso.

desencontrar-se

quando digo que me desencontrei de mim quando cruzava alguma esquina ou andava por alguma viela, não estou fazendo figuras de linguagem. é a verdade nua e crua.

houve um tempo que me tive. dois segundos depois, pisquei, distrai-me, olhei para o lado e só vi sombra. senti que, quiçá, um vazio irrecuperável tivesse me adentrado. porém, como o tempo é traiçoeiro, não consigo dizer se é reminiscencia remota ou aconteceu agora a pouco.