desatinos #1

* da tinta da melancolia: algumas verdades;

** sobre despir-me.

Um certo dia, você começa a se sentir mais cansada do que o normal. Em outro, acorda com vontade tendendo a zero de levantar-se; mas, ao notar seu atraso, sua mãe bate na porta, acende a luz e o mundo lá fora te suga. Assim os dias passam, sua cama te prende até sabe-se lá que horas, a vida boêmia de São Paulo parece não ter mais graça e o único motivo de manter-se acordada são as obrigações que o tempo faz questão de acumular em um malabarismo inútil nas suas costas. Dessa forma, a vida segue por alguns meses. Mesmo assim, você pensa que é uma fase, que talvez não seja o retorno de algo do passado e que, uma hora, passará. Pode ser cansaço. Porventura, um sentimento de culpa te aflige, pois existem milhares de pessoas Mundo afora com fome, frio e sentindo a violência na pele… Em contrapartida, sua vida é ótima! Você tem tudo que supostamente traz felicidade, contudo nada parece preencher a lacuna que existe no âmago.

Algumas semanas mais e o cansaço se torna tristeza. Ainda assim, a premissa maior segue sendo de que tudo isso é apenas uma fase. A desculpa continua sendo de que quiçá um elemento ou outro são gatilhos para a memória. Mais algumas semanas passam e, bem, você se pega chorando ao olhar seu reflexo no espelho ou enquanto bebe o café ou na calada da noite. Nesse momento, você se sente cansada, culpada, triste e envergonhada – pois, de certa forma, você já não consegue mais esconder de si mesma o que se passa. Além do mais, você gosta muito do seu café para lamuriar-se na frente dele.

Possivelmente, isto não é uma fase. No entanto, você ainda consegue fingir uma normalidade e sair de casa com certa frequência. A socialização, mesmo que goela abaixo, faz-te sentir melhor, pelo menos por alguns instantes. Com o tempo, tal mostra-se exaustiva. Tanto que, ao chegar em casa, tudo que você consegue fazer – para além de chorar e conversar com as paredes – é deitar-se em posição fetal e dormir mais do que você gostaria de admitir. Mesmo assim, ainda obtém sucesso caso precise fingir um sorriso. Você ainda funciona!

Somam-se mais alguns dias na conta e, bem, você já titubeia para sair do quarto. Qualquer convite ou perguntas de respostas monossilábicas passam por todos os tipos de filtros e questionários que sua mente cria. A resposta é um saudoso não. Você já não tem mais energia para interpretar. Nada te afeta. Nada te anima ou força um resquício de alegria. Agora, você se sente cansada, culpada, triste, envergonhada e com medo – pois, já vimos esse filme antes, você não quer perder seus/suas amigxs.

Você chegou a um ponto que contar para alguém todos os seus delírios é necessidade. Porém, hesita. Tenta deixar algumas coisas nas entrelinhas das conversas. Vez ou outra, escreve um texto neste Blog. Vomitar seus eus – ou, pelo menos, arriscar. Não criaremos ilusões, ninguém jamais entenderá as nuances disto. Consequentemente, você se sente cansada, culpada, triste, envergonhada, com medo e sozinha. E, tudo isso aparenta ser perfeitamente racional: você é a pessoa que não consegue controlar essa montanha-russa que sua mente se tornou. Você está sozinha na sua própria depressão.

Uma bela manhã, você acorda e simplesmente não consegue sair da sua cama. Sem pensar duas vezes, desliga o celular e fica ali, estática, olhando para o teto… Às vezes, os olhos correm o quarto. A paredes verdes, a luz amarelada que sai do abajur, a cama, o chão e as prateleiras se harmonizam tão inigualavelmente que você se sente abrigada. Você, os seus eus e o Silêncio. A sensação de alívio te toma. A não necessidade de encenar gera suspiros. O dia passa e tudo que você pensa é que precisa dormir muito – com ajuda de alguns comprimidos, porque, ultimamente, a insonia tem sido mais que uma companheira. Adormecer talvez traga alguns dias menos acinzentados. Ledo engano.

Quanto mais você dorme, mais você quer ficar deitada. Sua cama, bem como todo o cubículo verde, tornou-se seu porto seguro. Declara-se sua rendição. Tal que, entre cochilar e olhar para as paredes desenhadas, todo o cansaço, culpa, tristeza, vergonha, medo e solidão começam um movimento ininterrupto: misturam-se. Esse emaranhado transforma-se em um só sentimento: desespero. Todas as dores do Mundo parecem estar nos seus ombros. Essa estranha que existe dentro de você te enfrenta cada vez mais e você perde. Desencontra-se. Não consegue vomitá-la, controlá-la. Ela se torna você. Sufoco. Angustia. Ansiedade. Gestos inconscientes. Agitado. A garganta fecha. O corpo contraí. Desconforto.

Em algum momento, esse desespero se esvai lentamente e você começa a sentir nada. Apático. Indiferente. Você olha pra trás com uma entorpecente nostalgia. A saída é voltar a dormir, haja vista que, caso você sonhe, sentirá alguma coisa.

Em suma, esse é o coração do seu abismo: uma cacetada de nadas.

Advertisements

5 thoughts on “desatinos #1

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s