Monthly Archives: February 2015

são paulo

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* sobre a lembrança de algum feriado;

** influência da chuva que entenebrece minha janela de vidro.

Era noite. Véspera de feriado.

No carro, com alguma música bem calma que faz afronta ao todo, buzinas que ecoam pelas pontes, uma dor de cabeça irritante e pitadas de nostalgia: o Rio Tietê virou palco. Em todos esses anos, essa é a primeira vez que encontro beleza em tal cenário. É incrível como a cidade de São Paulo passa inteirinha por dentro das águas do Rio. Contagiante como as luzes dos postes e dos carros se espraiam e misturam-se com as espumas. A sensação de cidade me abarca, bem como a solidão e o escuro. Agridoce. Extraordinário como o reflexo distorcido de uma cidade distorcida se vislumbra. Incoerente. Inexplicável.

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assim, escrevo.

escrever

* desde 2010 tornando digitado aquilo que por muito tempo esteve escrito;

** foram 3 anos de tumblr e hoje fazem 2 de WordPress.

Escrevo desde que recordo da minha existência, desde que comecei a entender um pouco melhor o Mundo e me desentender cada vez mais. Sempre me fora terapia. Se, quando menor, escrevia algumas ficções sobre um Universo distante do meu. E, quando atingi minha adolescência optei por missivas para alguém imaginário. Hoje em dia, projeto-me inteiramente nos rascunhos mal-acabados que se perpetuam por esta página.

A inquietude, que sempre se alastrou pelo corpo, transborda de mim em forma de linhas não tão sofisticadas e arranjos obsoletos. O nó, que aperta a minha garganta, afrouxa-se quando escrevo. O ato da escrita quiçá seja remédio. Sana a angustia que me toma pela vida e acalma o meu outro eu. Este que se contorce tão firmemente por dentro da minha pele há tantos anos. Traz consigo a lucidez em meio aos anjos e demônios que me rodeiam. É o confessionário perfeito para alguém que não consegue se explicar olhando nos olhos, que gagueja quando precisa falar de si própria.

Porventura, seja a tentativa menos frustrante de ser alguém neste Mundo que todos esperam que sejamos ninguém – pois, no limite, viver é uma eterna encenação dentro de uma estalagem imutável (ou até mesmo, um jogo de xadrez!). De todo modo, é a minha maneira de consolidar que ainda vivo.

desatinos #1

* da tinta da melancolia: algumas verdades;

** sobre despir-me.

Um certo dia, você começa a se sentir mais cansada do que o normal. Em outro, acorda com vontade tendendo a zero de levantar-se; mas, ao notar seu atraso, sua mãe bate na porta, acende a luz e o mundo lá fora te suga. Assim os dias passam, sua cama te prende até sabe-se lá que horas, a vida boêmia de São Paulo parece não ter mais graça e o único motivo de manter-se acordada são as obrigações que o tempo faz questão de acumular em um malabarismo inútil nas suas costas. Dessa forma, a vida segue por alguns meses. Mesmo assim, você pensa que é uma fase, que talvez não seja o retorno de algo do passado e que, uma hora, passará. Pode ser cansaço. Porventura, um sentimento de culpa te aflige, pois existem milhares de pessoas Mundo afora com fome, frio e sentindo a violência na pele… Em contrapartida, sua vida é ótima! Você tem tudo que supostamente traz felicidade, contudo nada parece preencher a lacuna que existe no âmago.

Algumas semanas mais e o cansaço se torna tristeza. Ainda assim, a premissa maior segue sendo de que tudo isso é apenas uma fase. A desculpa continua sendo de que quiçá um elemento ou outro são gatilhos para a memória. Mais algumas semanas passam e, bem, você se pega chorando ao olhar seu reflexo no espelho ou enquanto bebe o café ou na calada da noite. Nesse momento, você se sente cansada, culpada, triste e envergonhada – pois, de certa forma, você já não consegue mais esconder de si mesma o que se passa. Além do mais, você gosta muito do seu café para lamuriar-se na frente dele.

Possivelmente, isto não é uma fase. No entanto, você ainda consegue fingir uma normalidade e sair de casa com certa frequência. A socialização, mesmo que goela abaixo, faz-te sentir melhor, pelo menos por alguns instantes. Com o tempo, tal mostra-se exaustiva. Tanto que, ao chegar em casa, tudo que você consegue fazer – para além de chorar e conversar com as paredes – é deitar-se em posição fetal e dormir mais do que você gostaria de admitir. Mesmo assim, ainda obtém sucesso caso precise fingir um sorriso. Você ainda funciona!

Somam-se mais alguns dias na conta e, bem, você já titubeia para sair do quarto. Qualquer convite ou perguntas de respostas monossilábicas passam por todos os tipos de filtros e questionários que sua mente cria. A resposta é um saudoso não. Você já não tem mais energia para interpretar. Nada te afeta. Nada te anima ou força um resquício de alegria. Agora, você se sente cansada, culpada, triste, envergonhada e com medo – pois, já vimos esse filme antes, você não quer perder seus/suas amigxs.

Você chegou a um ponto que contar para alguém todos os seus delírios é necessidade. Porém, hesita. Tenta deixar algumas coisas nas entrelinhas das conversas. Vez ou outra, escreve um texto neste Blog. Vomitar seus eus – ou, pelo menos, arriscar. Não criaremos ilusões, ninguém jamais entenderá as nuances disto. Consequentemente, você se sente cansada, culpada, triste, envergonhada, com medo e sozinha. E, tudo isso aparenta ser perfeitamente racional: você é a pessoa que não consegue controlar essa montanha-russa que sua mente se tornou. Você está sozinha na sua própria depressão.

Uma bela manhã, você acorda e simplesmente não consegue sair da sua cama. Sem pensar duas vezes, desliga o celular e fica ali, estática, olhando para o teto… Às vezes, os olhos correm o quarto. A paredes verdes, a luz amarelada que sai do abajur, a cama, o chão e as prateleiras se harmonizam tão inigualavelmente que você se sente abrigada. Você, os seus eus e o Silêncio. A sensação de alívio te toma. A não necessidade de encenar gera suspiros. O dia passa e tudo que você pensa é que precisa dormir muito – com ajuda de alguns comprimidos, porque, ultimamente, a insonia tem sido mais que uma companheira. Adormecer talvez traga alguns dias menos acinzentados. Ledo engano.

Quanto mais você dorme, mais você quer ficar deitada. Sua cama, bem como todo o cubículo verde, tornou-se seu porto seguro. Declara-se sua rendição. Tal que, entre cochilar e olhar para as paredes desenhadas, todo o cansaço, culpa, tristeza, vergonha, medo e solidão começam um movimento ininterrupto: misturam-se. Esse emaranhado transforma-se em um só sentimento: desespero. Todas as dores do Mundo parecem estar nos seus ombros. Essa estranha que existe dentro de você te enfrenta cada vez mais e você perde. Desencontra-se. Não consegue vomitá-la, controlá-la. Ela se torna você. Sufoco. Angustia. Ansiedade. Gestos inconscientes. Agitado. A garganta fecha. O corpo contraí. Desconforto.

Em algum momento, esse desespero se esvai lentamente e você começa a sentir nada. Apático. Indiferente. Você olha pra trás com uma entorpecente nostalgia. A saída é voltar a dormir, haja vista que, caso você sonhe, sentirá alguma coisa.

Em suma, esse é o coração do seu abismo: uma cacetada de nadas.

recomendo: obvious child

Jenny-Slate

* um pouco deslocado do todo, mas existem coisas que merecem ser compartilhadas.

** acabei de assistir e estou animada, não posso deixar isso passar em branco

*** como raramente (aka nunca) escrevo sobre esse tipo de coisa, talvez o texto fique meio confuso… my bad, mas tá valendo. tenham paciência!

À primeira vista, pode parecer um filme bobinho. Obvious Child em letra garrafais brancas, o fundo rosa-choque e uma mulher no canto. Ainda, se olhar a página do Facebook, parece mais uma comédia romântica na qual a personagem principal fica grávida. Bem, foi isso que eu pensei na madrugada passada e acabei assistindo “The Grand Budapest Hotel”.

O filme retrata a vida da aspirante a comediante Donna Stern (Jenny Slate) – uma mulher de vinte e tantos anos. Pois bem, em linhas gerais, depois de one-night stand com Max (Jake Lacy), Donna engravida. Sua decisão é abortar. Em nenhum momento do filme o aborto é moralmente questionado. Em nenhum momento Donna recua. Mas, o mais excelente é que a opinião de Max não importa. Afinal, o corpo é de Donna, it’s her call.

Para além disso, de uma certa forma, é colocada a questão da legalização do aborto e sua necessidade principalmente ao que tange a saúde da mulher. Em uma das passagens do filme, a mãe de Donna relata que já havia abortado e que, como naquela época era ilegal, o procedimento fora feito em um apartamento em cima da mesa da cozinha. Ela e mais muitas outras mulheres. O que nos leva a duas questões: as condições precárias dos locais em que normalmente são feitos os abortos e também como tais não são casos tão isolados assim. Porém, Obvious Child reproduz uma visão um tanto clássica e estereotipada: jovem de 20 e tantos anos, solteira, que mal consegue se sustentar, engravida e resolve abortar.

No entanto, no Brasil, a realidade é outra: a maioria das mulheres que abortam estão na faixa dos 30-39 anos, já têm filhos, religião e são casadas. Além disso, não existe recorte de classe no que tange a decisão de fazê-lo: mulheres pobres e ricas abortam todos os dias. Todavia, é inegável que os riscos que uma mulher rica corre durante o procedimento na clínica clandestina que seu dinheiro pôde pagar são surpreendentemente menores quando comparados aos riscos da mulher pobre (normalmente, negra) nas clínicas de garagens, onde muitas vezes tudo que se precisa é uma agulha de crochê.

Posto isso, é necessário que façamos esse debate abertamente e com o conjunto da sociedade, pois quando discutimos a legalização do aborto, não estamos fazendo apologia, muito menos exaltando tal prática, estamos apontando o índice de mulheres que morrem por terem realizado abortos inseguros, bem como, levantando a discussão acerca da falta de educação sexual e políticas de contracepção no SUS, principalmente nas periferias. Quantas mulheres terão que falecer para que o Estado compreenda que criminalizar não é a saída? Outrossim, é igualmente um debate sobre a liberdade de escolha das mulheres e o direito sobre o seus próprios corpos!

Obvious Child é um filme muito pedagógico e delicado ao retratar um tema tão caro para todas nós, mulheres. Claro que existem várias ressalvas, como, por exemplo, o fato de que não existem personagens negrxs. Mas, ainda assim, fez-me pensar bastante na minha condição enquanto mulher – até porque nada mais é do que a caminhada de auto-descobrimento e de empoderamento de Donna.