Monthly Archives: January 2015

vozes

Um emaranhado de vozes se confundem em mim. Queixam-se por dentro. Não se resolvem. Conflituam-se numa valsa não tão harmoniosa. Todas elas têm vontade de sair ao mesmo tempo. Dentre tais, há aquelas que eu grito para todos ouvirem. Outras que, por si só, bradam em um uníssono silencioso e passivo – no olhar. Há, também, aquelas que vociferam em minha alma. Algumas gostariam de clamar para que o mundo todo escutasse, mas engasgam. Invencível trava na garganta. No limite, existe tudo que eu queria confessar, em sussurros, mas, atenho-me calada.

da jaula

Hoje, quando pisou o pé pra fora do bar e seguiu sozinha em direção ao carro, sentiu o vento soprar diferente. Encarou como sinal. Alívio. O barulho dos carros da cidade de São Paulo conjuntamente com o Eddie Vedder, que cantava em sua mente, fizeram das duas quadras percorridas, calmaria. Calçada. Transeuntes bem vestidos. Semáforo. Sereno. Noite. A sensação de liberdade injetou-se automaticamente nas veias. Bem como a chuva que implodiu no peito. Esta inexplicável tomou cada milímetro do ser. Um misto de liberdade com desconforto. Carro. Velocidade. A brisa dos 100 km/h batendo na cara, literalmente.

A solidão tornou-se amigável e menos obscura. Encontro. Não significa que o bar não contemplava seus gostos; apenas a necessidade ininteligível do corpo. Mente.

esforço

se ontem a vontade era de me vomitar ou vomitar essa desconhecida que me habita; hoje, ela decidiu dormir e me deixar de plantão, salvaguardando nosso corpo. se ontem existiam nós e batatas entaladas na garganta; hoje, é como se uma corda enlaçasse o pescoço como uma cobra e sua presa. se ontem existia um mundo dentro de mim a ponto de me fazer sentir o estômago latejar; hoje, não há nada. vazio. apático. vegetal.

da lisura

* cotidiano. cíclico. não é sobre você;

** para não dizer que abandonei.

Ao som quase imperceptível da TV ligada e depois de algumas mudanças de posição, abre os olhos. Com rabiscos de um vida, a parede verde ganha reflexos amarelados – não do Sol que ilumina o lado de fora, mas sim da lamparina de canto que permaneceu acesa. Porventura, se não fossem os fragores que ricocheteiam a veneziana de madeira e também o celular que anuncia o meio da tarde, poderia até pensar que ainda é madrugada. Na verdade, sempre é noite.

Levanta. Banheiro. Cozinha. Café. Quarto. Senta na cadeira preta. Levanta a tampa do notebook. Facebook, nada. Twitter, nada. Gmail, nada. Popcorn Time. Girls. Play. Pausa. Inbox. Outra xícara de café. Ensaia abrir ‘Niels Lyhne’. Play. Inercia. Sobe a persiana.  Pausa. Cigarro. Café. Inbox. Whatsapp. Twitter. Textos sobre Feminismo. Whatsapp – chamaram-na para sair. Encolhe. Recusa. Pensa. Aceita; apesar dos pesares, que mal faz abandonar a luz amarela pelas luzes brancas dos postes por apenas algumas horas. Banho. Sai. Entra no carro. Oasis. 10 minutos. Vontade de voltar para o cubículo verde. Sufoco. Coração palpita. Incomodo. Ansiedade. Angustia.

Chega no bar. Drink. Conversa vai, conversa vem. Relógio não anda na mesma velocidade que ela. Uma hora e meia. Chega mais um. 15 minutos. Sufoco. Conversa vai, conversa vem. Chega outro. 15 minutos. Quer a cadeira preta. Cansaço. Reluta. A cabeça pesa. Os olhos piscam. Cigarros. Terceira hora. Decide que vai embora. Despedida. Dirige pela força do hábito. Inconsciente. Oasis. Casa. Começa a chover.

“É um sinal. Voltei na hora certa, pelo menos não me molhei”

quem sabe

Nada da vida eu não entendo, muito menos a vida que é nada. Não sei direito o que é ou como é, na verdade não sei descrever essa angústia no meu peito… Às vezes parece que são todas as angústias de um mundo: juntas, sobrepostas, dispostas, esmagadas, desorganizadas. E ferve aqui dentro, deixa-me fria. Mas não me deixa.

ímpar. sobre 14 e novo.

2014

* não estava nos planos escrever uma despedida para 14 e Novo, nem meus achismos sobre Dois Mil e CRISE… Daí li “KADOSH”, mudei de ideia.

Este texto, rascunho sobre um ano implacável, não estava programado para existir. Haja vista que consigo facilmente descrevê-lo com poucas e certeiras palavras desconexas, como bem lhe cabe o adjetivo, sem questionamentos quanto a sua plenitude. Sendo assim, não vi o porquê de escrever sobre algo apaticamente intenso. Não existem razões para explicar os meus não abraços, não beijos, não sorrisos. Muito menos descrever a fragrância de um ano que teve cheiro de café e solidão. Subjetivo. Estático. Todavia, é desconforto que precisa se expressar.

Meu desconforto talvez venha por eu ainda estar perdida de mim mesma. Ou, pelo meu próprio desconforto com a vida.  A pergunta que paira e acolhe todas as palavras escritas durante 2014, porventura, seja: e o que foi a vida? Pois bem, não me arrisco a responder, já que mesmo embriagada, tenha sido lúcida demais. Às vezes, claustrofóbica.

Poderia desenhar o ano que passou com as mesmas palavras que fiz Dois Mil e Doce, e este rascunho ainda seria amargo. Acre. Agridoce. Digo isso pois disputaram-me acirradamente. Intensidade. Contudo, apenas. Dois Mil e Doce é o quebra-cabeça que demorou 365 dias para se completar. Todas as peças fizeram sentido. Os tons deixados foram arte, ainda que contrastados. Em contrapartida, 14 e Novo caso juntado, não assume forma. Sem coesão e coerência. No limite, diria que se por um lado conseguiu fechar alguns jogos em aberto, por outro deu-me quebra-cabeças novos que, talvez, necessitem mais do que dias para serem montados. Minha recusa em escrever isto quiçá seja reflexo da incapacidade que o incompleto me coloca.  Ainda que, amiúde, escreva sobre o inacabado.

14 e Novo abre portas para Dois Mil e Crise. O que foi par, terminou impar e consolidou um gosto forte de tarja preta nas bocas, na minha própria.

um pouco grinch

anonovo

*enquanto trabalho no balanço de 2014 no dia 31/12/2014;

**apenas sobre minha incompreensão frente ao estado das pessoas.

O espírito de final de ano nunca me envolveu. Natal. Ano Novo. Madrugadas como outras quaisquer. Tenho problemas com a subjetividade dos parâmetros de tempo. A contagem das horas, dos dias, das semanas e dos anos. Ainda assim, agora que já passou das 20h, o coração descompassa um pouco, acelera e volta. Não é espírito de final de ano, é o constante medo do futuro. Imprevisível. Logo após às 0h é um outro ano, porém, de uma mesma vida. O ímpeto da mudança que surge nas pessoas me incomoda. Hipócrita. Ilusão. Quiçá seja esta a combinação de palavras que sustente o tal do espírito de fim de ano. Algumas caixas de panetone se somam, também. Pode ser que não.

Conforme o tempo passa, tenho me tornado ainda mais amarga. Porventura, tal seja reflexo do gosto de tarja preta que a vida tem deixado nas bocas, na minha própria.