Monthly Archives: September 2014

silencio

persona

Às vezes, o tal do Silêncio me vê andando por aí e, propositalmente, esbarra em mim. Cumprimenta-me com um aceno de chapéu. Muda o rumo. Segue comigo em direção a minha casa. Uma certa angustia um tanto confortável se instaura. É saudade de sentir. E assim caminhamos lado-a-lado.

Abre a porta para mim como se o Diabo me abrisse a porta do Inferno. Entra sem convite. Passa o café. Senta-se a mesa e me observa com indiferença: como se essa cena fosse parte cotidiana das nossas vidas. Fixa seu olhar desesperançoso sobre meus movimentos como se soubesse que eu estava prestes a fazê-los. Talvez me conheça melhor que ninguém. Isto me intriga. Então, a avalanche incômoda, que há tempos se mantinha comigo, sobressai. Desestabiliza-me.

Sentindo minha falta de nexo, meu descompasso comigo mesma, decide, então, ficar para o jantar. O Silêncio e eu. Assim, entre um dia quente e seco e molhado, o tempo passa. E o vermelho da expressão denuncia. E a cena se repete com a mesa posta.

Porventura, um talher esbarra no outro, os pneus dos carros cantam do lado de fora, uma criança ri, o vento bate nas portas de vidro e o cigarro queima. Outrora, um soluço ecoa pelos corredores e os tímpanos sensíveis se incomodam. Em contrapartida, os olhos adaptam-se aos focos de luz amarela em meio às luzes apagadas. Não houve noite. Dois dias em um prolongado.

O Sol se pôs. A noite caiu. A neblina fria do início do dia se mistura com o Sol que nasce. E assim, firmou-se a reclusão pré-disposta que venho lapidando há dias. As renuncias às vezes ininteligíveis mais do que partem, partem-se. Não é o anuncio de uma recaída, nem o medo da mudança. É a vontade inflamada de, por muitos instantes, não estar por entre as gentes. É a eterna luta do meu etéreo bipolar.