entrave contraditório

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“Nenhum castigo é duro o bastante para quem ama”

– The Devil’s Eye, Ingmar Bergman.

Uma vez você me disse que estava viciado em mim; então, passou. Talvez eu não seja uma droga tão forte, ou melhor, eu não sou e nunca fui mais forte que você. Você que continua em mim. Você que persiste e insiste e me ganha mesmo que nos perdendo. E eu nunca te disse todo esse efeito e poder que você tem sobre mim. Todavia, contei por ai, por aqui pelas entrelinhas, acolá.

Esse texto é pra você que nunca ouviu meu ‘eu te amo’, mesmo que te amando, mesmo que tivesse te amado. Esse texto é para você que se contentou com meus ‘aconteces’, com aquelas famosas coisas da vida. Esse texto é um relato não tão extenso daquilo que eu ainda não sei explicar, daquilo que eu não sei se existe ou se é ainda aquela minha memória traiçoeira com um pouco daquilo que eu quis acreditar. Esse texto é para todas as vezes que eu disse e disser que nunca te amei e que nada sei. Para você que nunca acreditou naquelas palavras frias, na minha insensibilidade incalculável.

Depois de tudo daquilo que nunca fomos, nada mais ficou no lugar. Quer dizer, nada teve um lugar de verdade em meio a minha desordem. Nada além de você, daquele lugar tático que você ocupa. Que me ocupa. Que me tortura. E me para. Sendo que eu ainda estou naquele luto de quem perde a luta. Uma luta ineficaz. Uma luta travada entre eu e meus alguéns em mim, por mim, contra mim. Pelo fardo que você ainda é naquilo que me é privado. Por todas as vezes que eu joguei minha bagunça para baixo do tapete ou da cama e me iludi. Uma luta que eu nunca enfrentei. Uma luta que eu protelei até agora. Uma poeira que eu nunca joguei fora. O livro antigo que eu preferi deixar na estante. O círculo que deixei que virasse outra forma. O sentimento que eu nem sei se existe ou existiu, mas que eu dou corda.

Posto que ainda não estou ciente do porquê disso tudo, não consegui me arrumar no meio de tanta confusão. Você sempre me confundiu. Eu nunca consegui te ler e entender. Logo, prefiro ficar com Fernando Pessoa, uma vez que “aquilo que se perdeu, aquilo que se deveria ter querido, aquilo que se obteve e satisfez por erro, o que amamos e perdemos e, depois de perder, vimos, amando por tê-lo perdido, que o não havíamos amado; o que julgávamos que pensávamos quando sentíamos; o que era uma memória e críamos que era uma emoção”… Talvez eu nunca tenha te amado, de fato.

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