nesta valsa falciforme

                                Não sei valsar ao som da música que toca.  Há um tempo reparei que perdi a sensibilidade de antes e hoje me encontro mais racional do que a terapeuta um dia disse que eu sou. Não consigo escrever sem que pareça mecânico, nem mais tornar um texto simples, opulento; a questão toda é que me tornei, além de tudo, direta. Um pouco mais instintiva também, porém, sem que eu me arrependa dos meus atos e comportamentos – continuo com a mesma intensidade. Neste ardor de mudanças, meu olhar sobre o mundo não se manteve intacto: consolidei muito do que eu já pensava e exclui o que não combinava com meu novo ser humano. Em suma, continuo achando essa sociedade um porre e não guardo mais angústias – nada fica o dito pelo não dito, não mais –, respectivamente.

                Queria entender o porquê de a donzela ceder aos desejos do Homem, se ela sabe que tudo isso é uma cilada. O encanto de valsar por ventura não é mais do que momento, fato efêmero que a julgar com ajuda dos meus botões, concluo que nada mais é do que enganação múltipla aos olhos dos superficialistas. Ah, os superficiais: queria ser ingênua a ponto e ver o mundo do mesmo modo que eles. No entanto, sei que as aparências enganam.

                A urgência do acúmulo, a vontade de ter, a amiúde retração de ser, o modo de ver, a questão do estar, a mesquinharia burguesa, a necessidade do ter e o caos da existência… Não há combate, preferem a passividade. É a dança do Homem, são seus passos conduzindo a donzela, esta que se deixa levar pelo som e conforto do que lhe parece ser nuvem em vez de chão. Ah, a donzela chamada Sociedade… Tão ingênua quanto meus pensamentos anti-aristotélicos. Todavia, carrega consigo sobrenome Realidade.

                A melodia que conduz tal dança deixa claro o caráter das condições que tal comunidade instituiu. No tocante ao todo, ela se restringe a uma pequena porcentagem da população, a outra fração é como se não existisse, uma vez que não é do grande grupo (atente para a ordem de termos) de consumidores. Apenas existem para corroborar com o sistema. Sistema de capitalistas hipócritas que eu não consigo entender.

                Não vejo motivos para que haja lucros exorbitantes desde pequenas até grandes empresas, quero dizer, motivo teria se o lucro fosse investido na melhoria de tal ou em progresso cientifico ou em eficazes contribuições para a população que não existe – aquela carente de recursos. Mas não: o lucro vai para as contas bancárias que se perderam dentro dos códigos binários de tantos zeros que ostentam. Isso quando o “lucro” é realmente existente, haja vista que a corrupção está em alta. É incompreensível por mim o valor que os Homens dão à instituição Capital. O mesmo se faz quando começo a pensar no por que da venda de comida, água, abrigo e roupas, quando esses deveriam ser distribuídos, posto que são artigos essenciais para a existência do ser. É essa desumanidade da humanidade que me assusta e me faz crer que corremos em direção à extinção – pensada – da espécie.

                Tento entender vários pontos dessa sociedade egoísta. Não consigo acreditar que ainda há tabu; que amor e sexo são enlaçados: creio que não necessariamente. Não entra na minha cabeça a discriminação, a marginalização, o preconceito, a violência sádica dos Quadrados. Na minha mente – talvez inocente em demasia –, essa sociedade educada pelo sistema, não faz sentido algum. Clamam por milhões de melhorias, mas não lutam por nenhuma delas.

                Em minha opinião, gostam é da comodidade e do conforto, da bolha – que pensam que é blindada – e onde mantém suas vidas perfeitas, assim, quando alguém ameaça uma luta, estão ameaçando sua rotina fajutamente ideal, que por mais infeliz que esta seja e por mais que em suas mentes não haja justiça, preferem a não subversão. Em cenário amplo, ninguém é cego, muito menos parvo, acontece que vive-se hoje numa sociedade de medos e ansiedade. Por isso que a donzela não para de dançar nunca: na mente dela, o controle está em suas mãos, mas não, nunca esteve, o controle é do sistema, que ninguém vê. E, portanto, este que sustenta tamanho pavor… Ah, o Homem que conduz a valsa.

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