esta minha estante

Antes era tão intransigente que não aceitava ser remontada. Queria ter tudo que o mundo pudesse fornecer. Acabou que de tudo tinha, porém, desorganizado. Quando a vida tentou então dar uma forma a ela, desestabilizou-se. A cada livro no lugar uma dor infindável se instaurava. A cada peça desnecessária que era jogada fora, ao vento deixada, parecia injustiça perpétua. Não entendia o porquê de tantos irem embora e outros – que até então tanto valor não se dava – se estabeleciam ainda mais nela, fixavam-se e por mais que ela relutasse contra essa estadia definitiva, os outros eram ainda mais fortes que sua vontade e seus gostos.

Aos poucos a estante que abarcava tantos milhões de exemplares estava vazia. Não completamente vazia, mas necessariamente vazia. Guardava apenas aqueles mais preciosos, aqueles dos melhores que no meio de tanta novidade acabaram se perdendo no passado longínquo. Esses se findarão ainda mais, pois, como dizem os populares, a cada vez que lemos o mesmo livro, criamos uma perspectiva diferente e continuamos a gostar. E nesse ponto que a vida acerta, a vida recicla, mas escolhe inconscientemente os que permanecem, mesmo que livros.

Dessa forma, enquanto a vida ainda existir, outros livros minuciosamente entrarão para essa coleção. Alguns livros de bolso podem até lidos e explorados serem, mas talvez, não comporão. As melhores amostras para o mundo, porventura, não sejam as mesmas para a minha estante. Todavia, ainda assim, haverá modelos que se encaixarão e, consequentemente, cravar-se-ão. Temos uma nova prateleira.

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