Monthly Archives: November 2010

esta minha estante

Antes era tão intransigente que não aceitava ser remontada. Queria ter tudo que o mundo pudesse fornecer. Acabou que de tudo tinha, porém, desorganizado. Quando a vida tentou então dar uma forma a ela, desestabilizou-se. A cada livro no lugar uma dor infindável se instaurava. A cada peça desnecessária que era jogada fora, ao vento deixada, parecia injustiça perpétua. Não entendia o porquê de tantos irem embora e outros – que até então tanto valor não se dava – se estabeleciam ainda mais nela, fixavam-se e por mais que ela relutasse contra essa estadia definitiva, os outros eram ainda mais fortes que sua vontade e seus gostos.

Aos poucos a estante que abarcava tantos milhões de exemplares estava vazia. Não completamente vazia, mas necessariamente vazia. Guardava apenas aqueles mais preciosos, aqueles dos melhores que no meio de tanta novidade acabaram se perdendo no passado longínquo. Esses se findarão ainda mais, pois, como dizem os populares, a cada vez que lemos o mesmo livro, criamos uma perspectiva diferente e continuamos a gostar. E nesse ponto que a vida acerta, a vida recicla, mas escolhe inconscientemente os que permanecem, mesmo que livros.

Dessa forma, enquanto a vida ainda existir, outros livros minuciosamente entrarão para essa coleção. Alguns livros de bolso podem até lidos e explorados serem, mas talvez, não comporão. As melhores amostras para o mundo, porventura, não sejam as mesmas para a minha estante. Todavia, ainda assim, haverá modelos que se encaixarão e, consequentemente, cravar-se-ão. Temos uma nova prateleira.

Advertisements

olhar

Como você se sente quando, enquanto anda pelas ruas do Centro, vê pobres desabrigados? Como você se sente ao reparar que seus maiores problemas são ínfimos diante do resto do Mundo? E, ao chorar e espernear e alucinar, você percebe que ninguém dá a mínima para todo o seu narcisismo e egocentrismo? Então, ao realizar tamanha vastidão que se torna a vida e o globo, percebemos que somos pontos lamentando o dia de hoje e rezando – mesmo que sem fé – pelo melhor para o amanhã. Paramos. Limitamos a nós mesmos. A culpa logo toma força e começa um serviço penoso sobre nossos ombros e coluna já corcunda. Assim, nos arrastamos até a linha de chegada que nunca chega, é eterno. Ao reparar que tudo vai ficar em tal estado, enlouquecemos. Enlouquecemos e nos conformamos. Nada vai voltar, e o peso pressionando nossos ombros e cabeça permanecerá. Nenhum Deus pode tirá-los dali, ninguém pode assegurar que as coisas ficarão bem e serão esquecidas. É algo com o que temos que viver e nos adaptar. Tal que a vida prossegue, com seus altos e baixos sem sincronia. Com sua ampulheta sempre ali, esperando que nós desistamos, para que então, toda a areia termine de cair.

apresento Ela ao público

Em um dia triste e nublado, Ela decidiu que nada daquilo fazia sentido, uma vez que havia optado por ficar. Recusava todos os convites para festas. Vivia cheia de segredos consigo mesma. Transbordava lágrimas não tão doces como as das fadas. Ela já não ria. Era insegura e desconfiada. Descobrir-se foi fatal: um estalado tapa na cara.

Pois bem, nesse dia acinzentado e constante, Ela decidiu que acabaria de uma vez por todas com toda essa dor existencial. Seu imenso – porém, vazio e solitário – mundo não valia mais a pena. Revoltou-se. Abriu a janela do quarto. Ela, então, se olhou no espelho. Não viu nada além de uma estranha. Imaginou-se. Viu seu reflexo sem todo aquele cabelo opaco e espontaneamente bagunçado; concluiu que era todo esse emaranhado que irradiava infelicidade para o resto de seu corpo. Assim, deliberadamente, ligou para todos os salões do Bairro em busca de uma hora para aquela mesma tarde. E, foi-se.

Voltou para seu quarto retangular com uma aparência renovada, mesmo que cansada e ainda melancólica com o ar de nostalgia. Fez-se nova. A cor de ferrugem e os nós desapareceram. Seu cabelo se resumiu a um penteado estranho, irregular e que não dizia muita coisa, pensou. Bom, Ela já não dizia muita coisa mais. Era estranha e irregular, tal como o corte de cabelo.

Todavia, ainda não havia se achado perante a todos.

Ela ainda é estática. Ela ainda é tão insegura quanto. Ela ainda tem segredos confidenciais e próprios. Ela ainda transborda. Contudo, desvendou o riso. Ela não deixou de ser quem era, mas passou a ser um era somado a um sou, fazendo tal que às vezes se confunde, mas preserva o que sempre foi.

Do baque

Um baque me ocorreu. Como um estrondo fantasmagórico e angustiante, um choque de realidade. Senti como se meu coração diminuísse e ficasse do tamanho do coração do Grint. Senti minha respiração falhar e minhas veias começaram a saltar contra a minha pele. Olhei para o lado e tudo que vi fui eu. Olhei ao redor e tudo que consegui descrever foi o antes. Olhei para frente e nada vi.

Numa das recaídas de fim de ano, já me reconheci tantas vezes em outras pessoas. Já olhei e nos vi. Já olhei e quis ter sido. Já criei um passado concertado. Já imaginei o poderia ser. Já me arrependi. No entanto, quando deixo esse mundo hipotético e me estabeleço sem vontade neste real, não consigo me arrepender de nada. É como se tudo calculado fora para dar certo e errado, ao mesmo tempo, com as mesmas pessoas, nas mesmas histórias.

Às vezes, sinto-me traindo todos. Sinto que não deveria ter feito laços sabendo onde tudo daria no final. Sinto que estou me enganando, sinto que todos estão. Sinto a dor de deixar tudo para trás. Dor qual que se multiplica ao passo que penso que sempre é assim: quando quase tenho comigo, sou obrigada a ceder. Não deveria ter feito laços -por mais fracos que sejam, não deveria. Não quero sentir a amargura de lágrimas salgadas quando a ficha estiver por fim caída. Abdico qualquer sentimento. Odeio sentir. Odeio ainda mais quando não sou sentida.